CARE 81

O mundo íntimo

Quando se destaca alguma parte de um contexto, faz-se luz sobre ela em razão de sua importância no quadro geral. Não se trata de subterfúgio, mas de aprofundamento do conhecimento para que ocorram melhor compreensão e aprendizado, desdobrando-se em novos conteúdos argumentativos para uma reflexão transformadora, dirigida àqueles que se habilitam à tarefa.

Jesus, em diálogo com escribas e fariseus, percebe a necessidade de não ficar preso às práticas externas, que, em sua generalidade, corrompem a existência humana pelo efeito alienante da repetição. Desta feita, o Mestre aprofunda o diálogo por meio de questionamento que convoca todos, a partir de uma perspectiva de maior alcance, a analisar e compreender que o que macula o homem não é o alimento consumido sem a prévia lavagem das mãos: “Não é o que entra na boca que macula o homem; o que sai da boca do homem é que o macula” [1]. A perspectiva dos interlocutores de Jesus refletia uma preocupação dogmática com práticas ritualísticas direcionadas ao corpo. Entretanto, o Mestre nazareno destaca o que era importante no contexto geral em que se constituiu a altercação: não era o ato de não lavar as mãos que maculava o homem, mas, sim, a dinâmica moral de seu mundo íntimo, em conflito com seus pensamentos e sentimentos.

Utilizando o coração como símbolo desse mundo íntimo, Jesus apresenta sua perspectiva divina para o percurso evolutivo do Espírito imortal: “O que sai da boca procede do coração e é o que torna impuro o homem, porquanto do coração é que partem os maus pensamentos, os assassínios, os adultérios, as fornicações, os latrocínios, os falsos testemunhos, as blasfêmias e as maledicências” [2]. Logo, emerge a luz que ilumina não o mundo exterior ritualístico, mas o mundo interno, que se encontrava submetido à sombra da ignorância da consciência, alimentada pela perspectiva materialista externa.

Jesus, em sua orientação pedagógica, ensina a todos, como aprendizado, que as práticas ritualísticas voltadas ao corpo físico dizem respeito às deliberações humanas de regras e condutas que organizam as sociedades. Contudo, amplia esse aprendizado quando destaca o mundo íntimo, transcendendo a lição para o Espírito imortal, que, em sua jornada evolutiva, purifica seu coração por meio das leis divinas, eternas e universais.

Referências bibliográficas:

[1] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo VIII, Item 8.

[2] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo VIII, Item 8.

Afonso Celso Martins Pereira

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