Fatos e consequências
Os fatos se apresentam em diversas áreas e em diversos ambientes da vida humana e, de acordo com seu potencial, deixam atônitos ou descrentes seus atores e seus espectadores. Todavia, a percepção e a reflexão, em uma análise momentânea, se limitam ao fragor da emoção, intempestivamente assaltada pelo imediatismo do presente.

O Espírito Delfina de Girardin, em Paris, no ano de 1861, esclareceu a importância de não ficarmos circunscritos apenas aos fatos, uma vez que o fenômeno produz consequências que transcendem a atual existência: “Para julgarmos de qualquer coisa, precisamos ver-lhe as consequências. Assim, para bem apreciarmos o que, em realidade, é ditoso ou inditoso para o homem, precisamos transportar-nos para além desta vida, porque é lá que as consequências se fazem sentir.” [1]
Qualquer fato relacionado à dor e ao sofrimento que, a princípio, se apresente ao olhar limitado do ser humano como uma desgraça, em uma análise que transcende a vida material pode se caracterizar como uma oportunidade regenerativa para aquele que a viveu, principalmente se o fez com aceitação e resignação. Não obstante, uma vida carnal de gozos e prazeres, considerada ditosa e bem-sucedida aos olhos do presente, coroada de sucessos e conquistas efêmeras que serão obliteradas no momento de seu desenlace corporal, poderá se constituir, na vida espiritual, como desgraça real.
A presente comunicação do Espírito em tela está inserida no Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo V — “Bem-Aventurados os Aflitos”. [1] Ao analisarmos este texto no contexto da bem-aventurança, abre-se-nos o entendimento de que as consequências das aflições vivenciadas em um planeta de provas e expiações se caracterizam como experiências benditas, compreendendo uma etapa carnal necessária que terá como consolação um descortinar, na vida espiritual, de maior leveza do ser harmonizado com as leis divinas — leis que transcendem o plano físico e se consolidam nas consequências enriquecedoras da alma.

Diante do exposto, somos convocados, antes de emitirmos opiniões a respeito de qualquer fato relacionado à experiência alheia ou à própria, a considerarmos que o espectro de análise de que dispomos ainda se encontra bastante limitado a este plano material, cabendo-nos as condutas éticas do silêncio, da compreensão e da fraternidade, por desconhecermos a amplitude do desdobramento no plano maior, sob os auspícios do Divino Arquiteto, que se faz presente por meio da lei do amor, da justiça e da caridade.
Referências bibliográficas:
[1] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec. Capítulo V, Item 24.
Afonso Celso Martins Pereira
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