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O conhecimento de si mesmo

O conhecimento para o ser humano é uma via de desenvolvimento intelectual e emocional, oriundo das necessidades constitutivas das relações interpessoais e com o mundo, o qual se encontra jornadeando.

Entretanto, o desenvolvimento do conhecimento não se limita apenas às relações externas, com os objetos, mas também ao conhecimento de si mesmo. Este se realiza no desdobramento e nas injunções do mundo íntimo, na integração dos conteúdos psíquicos, através das relações do Ego, do consciente e do inconsciente.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo X – Bem-aventurados os que são misericordiosos, Allan Kardec, através da passagem narrada pelo Evangelista Mateus, destaca a importância do conhecimento de si mesmo, no item O argueiro e a trave no olho: “Como é que vedes um argueiro no olho do vosso irmão, quando não vedes uma trave no vosso olho? Ou, como é que dizeis ao vosso irmão: Deixa-me tirar um argueiro do teu olho, vós que tendes no vosso uma trave? Hipócritas, tirai primeiro a trave do vosso olho e depois, então, vede como podereis tirar o argueiro do olho do vosso irmão.” [1]

Jesus, mediante essa parábola, nos convida a um processo evolutivo através do autoconhecimento, fundamental para o avançar em direção às conquistas superiores. A trave em nossos olhos simboliza a sombra que ainda compõe a nossa personalidade.

A psiquiatra Nise da Silveira [2], estudiosa da psicologia Junguiana, nos esclarece: “As coisas que não aceitamos em nós, que nos repugnam e que por isso reprimimos, nós as projetamos no outro, seja ele o nosso vizinho, o nosso inimigo político ou a figura-símbolo como o demônio. E assim permanecemos inconscientes de que as abrigamos dentro de nós. Lançar luz sobre os recantos tem como resultado o alargamento da consciência. Já não é o outro quem está sempre errado. Descobrimos que frequentemente ‘a trave’ está em nosso próprio olho.”

O conhecimento de si mesmo é uma tarefa intrínseca a todo ser humano, que o leva a se responsabilizar pelas consequências de suas ações, não podendo acusar o outro pelas suas desditas existenciais, no exercício de seu livre-arbítrio. Tomar consciência dessa tarefa é progredir na senda reencarnatória.

Se libertar da sombra não é transferi-la de forma inconsciente ao outro, mas reconhecê-la através da tomada de consciência, de uma autoanálise, que a partir do autoamor e autoperdão, possamos fazer brilhar a nossa luz através do conhecimento de si mesmo.

Referências bibliográficas:

[1] O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. X, p. 144, FEB, Edição Histórica.

[2] Nise da Silveira, Jung: vida e obra, 5ª Ed. p. 104.

Afonso Celso Martins Pereira

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