Tribunais ambulantes
É o que somos com nossos julgamentos precipitados, levianos muitas vezes. As aparências e a falta de conhecimento completo dos fatos e circunstâncias levam-nos a essas atitudes indesejáveis, comprometendo-nos moralmente. Não conhecemos as razões profundas, as causas reais, os fatores envolvidos, as dores das raízes, e nos deixamos levar por antecipações no julgar, como se tribunais fôssemos — daí o adjetivo “ambulantes”, no caso. Andamos e vivemos julgando e, pior, não desejamos ser julgados…

O “não julgueis” [1], também constante do Capítulo X — “Bem-Aventurados Aqueles que São Misericordiosos” [2] —, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, após transcrições de Mateus e João, apresenta, em apenas três parágrafos, a lúcida apreciação do Codificador.
Comenta Kardec no exclusivo item 13 do citado capítulo [3]:
a) “[…] Esta máxima nos faz da indulgência um dever, porque não há ninguém que dela não tenha necessidade […]”, referindo-se ao “[…] atire a primeira pedra” [4], na conhecida passagem de Jesus. E acrescenta com sabedoria: “[…] Antes de censurar uma falta de alguém, vejamos se a mesma reprovação não pode recair sobre nós”.
b) “Reprimir o mal ou desacreditar a pessoa cujos atos se criticam.” São os dois motivos da censura lançada a alguém. O primeiro deles pode até ser um dever, mas o segundo cai na maledicência e na maldade, normalmente calculada.
c) Referindo-se ao fato de que Jesus, claro, não podia proibir a censura ao mal, quis dizer que “[…] a autoridade da censura está em razão da autoridade moral daquele que a pronuncia […]”.
O referido item 13 é muito precioso, mas fica ainda mais enriquecido com os itens 16 a 21 das Instruções dos Espíritos, especialmente no subtítulo “A Indulgência”.
José, Espírito protetor; João, bispo de Bordéus; Dufétre, bispo de Nevers, e São Luiz assinam as considerações ali presentes, com aprofundamento da questão e coerentes orientações.
Com ênfase, queremos recomendar aos leitores o estudo desses itens. Dada a profundidade dos ensinos ali constantes, é melhor buscar os textos na íntegra do que ficar destacando trechos. Entre eles, o que mais chama a atenção é o que foi respondido por São Luiz no item 21:
“Há casos em que seja útil revelar o mal de outrem?” [5]
O fato, porém, é que, no estágio em que estamos, nenhuma ou pouquíssima autoridade temos para julgarmos atos alheios. Ainda não conseguimos em nós mesmos o que censuramos nos outros… Perdemos, pois, a utilidade e a moralidade da crítica.
Concluo com a essência comum dos textos: sejamos antes severos conosco mesmos — temos muito para melhorar em nós mesmos —, em vez de nos tornarmos desatentos e precipitados julgadores da vida alheia, como se fôssemos autênticos tribunais ambulantes.
Referências bibliográficas:
[1] Mateus, Capítulo VII, Versículos 1-2.
[2] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo X.
[3] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo X, Item 13.
[4] João, 8:7.
[5] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo X, Item 21.
Orson Peter Carrara
Fonte: https://orsonpetercarrara.blogspot.com
(autorizado pelo autor)
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