CARE 79

Contrai nova dívida

As dores de toda espécie e as adversidades em geral normalmente provocam em nós certa indignação e, em alguns casos, até revoltas e incompreensões. Necessitados do exercício de resignar-nos, não nos damos conta de seus benefícios. A indicação abaixo aborda a velha questão.

A revolta, a rebeldia, a inconformação só agravam as situações adversas. Cabe com perfeição aqui o capítulo V — “Bem-Aventurados os Aflitos”, do Evangelho Segundo o Espiritismo. [1] O destaque da conhecida bem-aventurança no capítulo mais longo da obra oferece rico manancial para a grande virtude da resignação, especialmente com o belo texto constante de apenas dois itens — 12 e 13 — com o título “Motivos de Resignação”. Destaque-se que o texto é do próprio Codificador.

No texto em questão, no item 12, encontramos: “(…) quem murmura nas aflições, e não as aceita com resignação (…), quem acusa Deus de injustiça, contrai nova dívida que faz perder o benefício que se poderia retirar do sofrimento (…).” [1]

Mais adiante, já no item 13, afirma o Codificador — referindo-se ao comportamento de compreender a brevidade da vida material quando se considera o ponto de vista da vida espiritual — que isso leva a criatura humana a: “(…) moderar seus desejos, a contentar-se com sua posição sem invejar a dos outros, de atenuar a impressão moral dos reveses e das decepções que experimenta; (…) ao passo que pela inveja, ciúme e ambição, tortura-se voluntariamente, e aumenta assim as misérias e as angústias de sua curta existência.” [1]

Nem é preciso dizer da preciosidade do capítulo, recheado dessas pérolas.

A dor, que também pode ser física, apresenta-se, todavia, mais expressivamente nas graves questões morais, que nem é preciso relacionar.

Mas, para efeito didático e bom aproveitamento do ensino constante no trecho, destaquemos:

a) Quem reclama, revolta-se ou mesmo acusa a Deus contrai nova dívida;

b) Perde-se o benefício resultante da aflição enfrentada quando, sem coragem e resignação, se opta pela revolta e pela rebeldia;

c) Moderar os desejos, contentar-se com a própria posição sem inveja ou ciúme e atenuar as impressões que normalmente alimentamos com as decepções e dificuldades que vamos enfrentando.

Eis, pois, uma seleção para boa apreciação e profunda reflexão. Há que se pensar no agravamento com o acréscimo de nova dívida; há que se considerar que enfrentar o sofrimento com coragem e resignação acresce aprimoramento moral; e, finalmente, o desejo de moderação interior — em todas as direções — ajuda-nos expressivamente numa direção renovada.

O segredo, a grande pérola, todavia, está resumido no início do item 13, em uma única frase que depois se desdobra em outras considerações: “O homem pode abrandar ou aumentar a amargura das suas provas pela maneira que encara a vida terrestre (…).” [1] Eis o detalhe!

Esse “encarar” nos leva aos apegos de toda espécie — inclusive os mentais e psicológicos — e seus conhecidos desdobramentos, ou ao viver confiante, sabendo de antemão que não somos daqui, que aqui estamos temporariamente e que, Espíritos imortais, glorioso destino nos aguarda — de intensa felicidade e produtivo trabalho em favor do bem geral — e que nos cabe alcançar pelo esforço continuado de melhora moral, para merecermos esses novos estágios.

A resignação não é mera virtude a ser conquistada. É também passaporte moral que nos capacita para planos maiores. Ampliamos nossa visão por meio de sua vivência.

Cada pérola vamos encontrando… É o Evangelho e suas lindas lições.

Referências bibliográficas:

[1] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec. Capítulo V — “Bem-Aventurados os Aflitos”, Itens 12 e 13.

Orson Peter Carrara
Fonte: https://orsonpetercarrara.blogspot.com
(autorizado pelo autor)

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