CARE 82

A cultura da pressa e o direito de ser criança

Vivemos numa época marcada pela velocidade. Queremos respostas imediatas, resultados rápidos, comunicação instantânea e produtividade constante. A tecnologia encurtou distâncias, acelerou processos e transformou profundamente a maneira como trabalhamos, estudamos e nos relacionamos. Entretanto, essa cultura da pressa, tão presente no mundo adulto, tem alcançado também a infância.

Estaremos respeitando os propósitos espirituais da infância quando transformamos a criança em uma pequena adulta, submetida a uma rotina de exigências contínuas?

Allan Kardec faz distinção entre instrução e educação moral [1]. Nossa época valoriza intensamente a instrução: idiomas, tecnologia, desempenho acadêmico, capacitações diversas. Contudo, a missão principal dos pais é auxiliar o desenvolvimento moral do Espírito reencarnado. Uma criança pode aprender três idiomas, mas ter dificuldades em compartilhar, perdoar, respeitar, controlar impulsos e desenvolver empatia. Essas virtudes frequentemente são exercitadas justamente nos momentos mais simples da infância, especialmente nas brincadeiras espontâneas e na convivência familiar.

Talvez a pergunta mais importante não seja quantas atividades nossos filhos realizam, mas que tipo de seres humanos estão se tornando.

A obstinação pela produtividade pode atingir a educação dos filhos. Muitas vezes os pais desejam oferecer tudo o que não tiveram e, movidos pelo afeto, acabam privando a criança de algo essencial: o tempo. Tempo para brincar, para imaginar, para observar a natureza. Tempo para simplesmente ser criança. Diminuir a carga de cobranças diárias e permitir que o pequeno simplesmente brinque é um ato de amor e responsabilidade espiritual.

Quando Jesus colocou uma criança no centro de seus ensinamentos, não destacou seus conhecimentos, talentos ou realizações. Chamou a atenção para sua espontaneidade, sua confiança e sua capacidade de aprender. Talvez a cultura da pressa esteja nos fazendo esquecer essa lição. Enquanto nos preocupamos em preparar a criança para o futuro, corremos o risco de não respeitar o presente que Deus lhe concedeu: a própria infância, pois esta não é um simples estágio biológico, mas uma ferramenta pedagógica da Lei Divina. Se Deus concede ao Espírito um período de fragilidade e dependência, é porque há objetivos educativos que não devem ser negligenciados.

Educar é preparar para a vida, mas também é permitir que cada etapa da existência cumpra sua finalidade nos planos da Providência Divina.

Que saibamos resguardar o direito ao riso frouxo, ao pé descalço na terra e à imaginação livre. Afinal, para construir o homem de bem do amanhã, precisamos, primeiro, garantir a leveza da criança de hoje.

Referências bibliográficas:

[1] O Livro dos Espíritos, Questão 917.

Verônica Azevedo

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