Filhos não nos pertencem, mas nos são confiados
“Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem.” (Khalil Gibran, O Profeta) [1]

É muito natural que pais se refiram aos filhos como “meus”, numa expressão de afeto e responsabilidade. No entanto, à luz da Doutrina Espírita, essa ideia ganha novo significado. Os filhos não nos pertencem como posse; são Espíritos imortais, criados por Deus, que nos são confiados temporariamente para orientação, cuidado e amor.
O Livro dos Espíritos, na questão 204, esclarece que a família corporal é, muitas vezes, o reencontro de laços espirituais construídos ao longo de várias existências. [2] Pais e filhos se reúnem não por acaso, mas por necessidades de aprendizado mútuo, reajuste e progresso moral. Assim, a paternidade e a maternidade deixam de ser apenas vínculos biológicos e passam a ser compromissos espirituais.
Compreender que os filhos não nos pertencem ajuda a educar com mais equilíbrio. Quando os pais acreditam ser donos do destino dos filhos, podem cair no controle excessivo, na imposição de expectativas ou na dificuldade de aceitar escolhas diferentes. Ao contrário, quando entendem que são educadores e guardiões temporários, tornam-se mais respeitosos da individualidade do Espírito que cresce sob seus cuidados.
Jesus, ao conviver com as crianças, jamais as tratou como propriedade dos adultos. Ao dizer “Deixai vir a mim os pequeninos” [3], ensinou que cada criança possui valor próprio diante de Deus e merece acolhimento, respeito e amor. Sua pedagogia baseava-se no exemplo, na mansidão e na confiança no Pai. Isso não significa ausência de limites ou de responsabilidade. Educar é orientar, corrigir e proteger, mas sempre com amor e humildade.
O capítulo XIV do Evangelho Segundo o Espiritismo nos lembra que os pais respondem pelo encaminhamento moral dos filhos, especialmente nos primeiros anos, quando o Espírito é mais acessível às impressões educativas. [4] Essa responsabilidade, porém, deve ser exercida sem autoritarismo, reconhecendo que cada Espírito possui seu ritmo e suas provas.
Aceitar que os filhos não nos pertencem também auxilia os pais a lidarem melhor com frustrações, medos e despedidas naturais da vida. Os filhos crescem, seguem seus caminhos e fazem escolhas próprias. Confiá-los a Deus é um exercício diário de fé e desprendimento.

Que possamos, como pais, agradecer pela confiança divina que nos permite participar da jornada desses Espíritos. Amá-los, orientá-los e respeitá-los é cumprir nossa tarefa, certos de que somos companheiros de caminhada — nunca proprietários de destinos, mas servidores do amor de Deus na educação das almas.
Referências bibliográficas:
[1] GIBRAN, Khalil. O Profeta. Capítulo “Dos Filhos”.
[2] O Livro dos Espíritos, Allan Kardec. Questão 204.
[3] Mateus, 19:14.
[4] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec. Capítulo XIV.
Verônica Azevedo
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