Comentando Kardec
O Livro dos Espíritos – Livro II, Capítulo VI – Lembrança da existência corporal
304. O Espírito se lembra de sua existência
corpórea?
— Sim, tendo vivido muitas vezes como homem, recorda-se do que foi. E te
asseguro que, por vezes, ri-se de piedade de si mesmo.
Comentário de Kardec: Como o homem que, atingindo a idade da razão, ri das suas loucuras da juventude ou das puerilidades de sua infância.
305. A lembrança da existência corpórea se apresenta ao Espírito de maneira completa e inopinada, após a morte?
— Lembra-se das coisas na razão das consequências que acarretam para sua situação de Espírito. Mas compreendes que há circunstâncias às quais ele não atribui nenhuma importância e que nem mesmo procura recordar.

A desencarnação é o desprendimento do Espírito das coisas terrenas, momento em que se recupera a identidade integral. Os Espíritos mais esclarecidos olham para o passado de forma ampla, focando nas virtudes conquistadas.
A entrada em uma nova vida traz consigo variadas impressões, de acordo com a elevação moral do Espírito. Geralmente, a separação da alma é menos penosa depois de longa doença; mortes súbitas ou violentas, ao contrário, lançam o Espírito em perturbação prolongada. Os suicidas reconhecem, com espanto, que não trocaram seus sofrimentos terrenos senão por outros ainda mais angustiosos [1].
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, o item “Uma realeza terrestre” [2] narra a experiência de uma rainha da França que acreditou que, ao desencarnar, continuaria rainha no mundo espiritual e teve a experiência de ser recebida por um homem que ela considerava inferior, por não ser da realeza. Ela aprendeu que o que realmente tem valor são a abnegação, a humildade, a caridade e a benevolência para com todos. Não nos perguntarão quem fomos, que cargo ocupamos, mas que bem fizemos e quantas lágrimas enxugamos.
No livro Além da Morte [3], Otília Gonçalves, que fora trabalhadora da Mansão do Caminho, narra como aconteceu sua inesperada desencarnação. Viu, projetada em uma tela, a recapitulação de todo o seu passado, com rapidez e sem a omissão de nenhum detalhe. Houve o arrependimento das faltas, e surgiram soluções que não haviam sido imaginadas. Somente quando ela conseguiu orar com fervor é que apareceu Liebe, sua mentora, que a libertou do túmulo e das impressões negativas.
O conhecimento do futuro espiritual e o estudo das leis que presidem a desencarnação são de grande importância diante da morte: amenizam os últimos momentos, tornando mais fácil o desprendimento.
A Dra. Helen Wambach, psicóloga norte-americana, escreveu o livro Recordando Vidas Passadas, em 1978 [4]. Realizou 1.100 entrevistas, nas quais hipnotizava as pessoas e as conduzia a regressões ao passado. Segundo a pesquisa, 90% delas eram pessoas comuns. A maioria relatou que o desencarne fora indolor. Os voluntários descreviam o plano espiritual como um local de profundo acolhimento, em que passavam por um processo de revisão da vida que acabavam de encerrar. Muitos relataram ter escolhido reencarnar voluntariamente, cientes dos desafios que enfrentariam. As dificuldades eram vistas não como castigo, mas como testes necessários para o amadurecimento da alma. Uma constante nos relatos era a de que os membros das famílias atuais já haviam compartilhado outras existências juntos, às vezes com papéis trocados.
Que possamos nos preparar para que, quando chegar a hora de retornarmos à Pátria Espiritual, estejamos seguros e amparados por nosso mentor e por aqueles que nos antecederam na caminhada.

Referências bibliográficas:
[1] Depois da Morte, Capítulo XXX.
[2] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo V, Item 21.
[3] Além da Morte.
[4] WAMBACH, Helen. Recordando Vidas Passadas, 1978.
Ângela M. Camargo
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