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Prudência

A prudência era, para os gregos, uma das quatro virtudes cardeais (do latim cardo, “eixo” ou “pivô”, aquilo em torno do qual gira a vida moral). As outras eram a coragem, a temperança e a justiça.

Para Aristóteles e Platão, especialmente, prudência não significava apenas cautela ou medo de errar, como às vezes entendemos hoje. O termo grego era phronesis, geralmente traduzido como sabedoria prática, ou seja, a capacidade de deliberar corretamente sobre como agir para realizar o bem. A prudência permite avaliar bem uma situação concreta, ponderar as consequências, escolher o meio correto entre extremos e agir da melhor maneira possível.

Na obra Ética a Nicômaco, Aristóteles define a prudência como “a disposição racional verdadeira que permite agir bem nas coisas que dizem respeito à vida humana” [1].

Ela não é apenas conhecimento teórico. É a inteligência aplicada à vida prática. Inclui:

  • Discernimento – saber distinguir o bem do mal numa situação real.
  • Deliberação – refletir antes de agir.
  • Escolha equilibrada – evitar extremos (princípio do “justo meio”).
  • Direção moral – orientar as outras virtudes.

Jesus recomendou a prudência: “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos; sede, pois, prudentes como as serpentes e simples como as pombas” [2].

Em Lucas, Jesus esclarece que ninguém começa a construir uma torre sem antes se sentar para calcular o custo [3]. Caso contrário, poderia iniciar a obra e, faltando recursos, deixá-la inacabada. As pessoas que passassem veriam a construção parada e zombariam: “Este homem começou e não conseguiu terminar”.

No Evangelho apócrifo de Maria, Jesus diz: “Velai para que ninguém vos engane dizendo: Ei-lo aqui, ei-lo lá” [4].

Segundo o teólogo francês Jean-Yves Leloup, “Ei-lo aqui, ei-lo lá” pode tratar-se de uma pessoa que promete facilmente nos aliviar de nosso fardo, resolver nossos problemas, curar nossas feridas ou mudar milagrosamente nossos pensamentos. Pode referir-se, assim, aos vendedores de ilusão que, às custas da boa vontade humana, exploram os incautos. “Ei-lo aqui, ei-lo lá” pode não se tratar de uma pessoa, mas de uma ideologia, de um partido, de um remédio milagroso, de uma lei ou de uma decisão governamental que deve “colocar tudo em ordem”.

Para os espíritas, tal expressão pode representar pretensas informações do “além”, desvinculadas de qualquer seriedade ou compromisso com a razão e o bom senso.

Para tudo isso, Jesus orienta: “Velai para que ninguém vos engane!” [4]

A virtude da prudência é realçada por Jesus na “Parábola do Administrador Prudente”, também chamada “Administrador Fiel e Sábio” [5]. Segundo ela, um rico proprietário chama o seu administrador porque ouviu que ele estava dissipando seus bens. O administrador está prestes a perder o emprego e pensa: “O que farei? Trabalhar pesado, não posso; mendigar, tenho vergonha.” Para garantir amigos que o acolham no futuro, ele reduz as dívidas dos devedores do patrão: um devia 100 medidas de azeite, então ele escreve 50; outro devia 100 medidas de trigo, e ele escreve 80. Surpreendentemente, o senhor elogia a esperteza (astúcia) do administrador infiel.

Segundo os comentaristas da Bíblia de Jerusalém, Jesus não elogia a desonestidade. O administrador é declarado injusto. O que é elogiado é a sagacidade, a capacidade de agir rápido para o futuro. Isso porque, segundo o costume tolerado na Palestina naquela época, o administrador tinha o direito de conceder empréstimos com os bens do seu senhor. E, como não era remunerado, ele se indenizava aumentando, no recibo, a importância dos empréstimos. Assim, na hora do reembolso, ficava com a diferença como um acréscimo que era o seu juro. No presente caso, ele não havia emprestado, na realidade, senão 50 barris de óleo e oitenta medidas de trigo. Colocando no recibo a quantia real, ele estava se privando apenas do benefício que havia subtraído. Sua desonestidade não consiste, pois, na redução dos recibos – o que não é senão um sacrifício de seus interesses imediatos, manobra hábil que o senhor pode louvar –, mas antes nas malversações anteriores que motivaram a sua demissão.

Referências bibliográficas:
[1] Aristóteles, Ética a Nicômaco.
[2] Evangelho segundo Mateus, 10:16.
[3] Evangelho segundo Lucas, 14:28-33.
[4] Evangelho apócrifo de Maria.
[5] Evangelho segundo Lucas, 16:1-13.

Ricardo Baesso de Oliveira

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