Dissonância cognitiva
A proposta ética de Jesus tem encontrado forte apoio nos estudos sobre dissonância cognitiva. Dissonância cognitiva é um conceito da psicologia social que descreve o desconforto mental sentido quando se mantêm crenças, valores ou atitudes que entram em conflito com as próprias ações ou com novas informações. O conceito foi proposto pelo psicólogo Leon Festinger, em 1957. A ideia central é a seguinte: as pessoas buscam coerência entre o que pensam, sentem e fazem; quando essa coerência é quebrada, surge a dissonância — isto é, uma tensão psicológica.

Um exemplo de dissonância cognitiva: uma pessoa sabe que fumar faz mal à saúde, mas continua fumando. Para reduzir o desconforto psicológico dessa contradição, ela pode pensar: “Meu avô fumou a vida inteira e viveu até os 90 anos, e todo mundo morre de alguma coisa mesmo.” Ou seja: o comportamento (fumar) entra em conflito com a crença (fumar faz mal), e a mente cria justificativas para diminuir essa tensão.
A teoria da dissonância cognitiva tem trazido relevantes contribuições para a melhor compreensão das relações humanas, notadamente daquelas de natureza moral. Isso ficou evidente no conceito de catarse. A crença psicanalítica nos benefícios da catarse, segundo a qual expressar a raiva seria uma forma de dissipá-la, foi refutada por décadas de pesquisa experimental. Quando as pessoas desabafam seus sentimentos de maneira agressiva, geralmente se sentem pior e ficam ainda mais irritadas.
A necessidade de justificar o que se fez — em razão da dissonância cognitiva — autoriza o indivíduo a continuar fazendo. Justificar o primeiro ato doloroso prepara o cenário para novos episódios de agressividade. É por isso que a hipótese da catarse está equivocada. A catarse mostrou-se um fracasso total em fazer as pessoas se sentirem melhor. Em diversos estudos, os participantes autorizados a expressar sua raiva sentiram muito mais animosidade do que aqueles que não tiveram essa oportunidade. A agressão gera autojustificação, que, por sua vez, gera mais agressão.
Quando prejudicamos alguém, a autojustificação leva-nos a encontrar motivos para tal (“ele merecia”, “é um bobão”, “é um sujeito maldoso”). Essa crença “autoriza-nos” a continuar prejudicando-o.
As ações generosas, por sua vez, podem criar uma espiral de benevolência e compaixão — um “círculo virtuoso”, na expressão do psicólogo Elliot Aronson. Quando fazemos uma boa ação, passamos a ver o beneficiário sob uma luz mais calorosa e até afetuosa. Nossa cognição de que não medimos esforços para fazer uma gentileza a outra pessoa é dissonante de quaisquer sentimentos negativos que tenhamos tido a respeito dela. Na verdade, depois de praticarmos a gentileza, costumamos perguntar-nos: “Por que eu faria algo legal para um idiota? Portanto, ele não é um idiota tão grande quanto eu pensava — na verdade, é um sujeito bem decente, que merece uma chance”.
Diversos experimentos corroboram essa ideia: quando somos persuadidos a fazer um favor especial a alguém, passamos a gostar mais dessa pessoa e convencemo-nos de que se trata de um sujeito bem merecedor. Estudos com crianças mostraram que aquelas que se viram como generosas continuaram a comportar-se com generosidade.
Embora a pesquisa científica sobre o círculo virtuoso seja relativamente nova, a ideia geral pode ter sido descoberta no século XVIII por Benjamin Franklin. Enquanto servia como funcionário na Assembleia Geral da Pensilvânia, ele ficou incomodado com a animosidade de um colega legislador. Decidiu, então, conquistá-lo, induzindo seu alvo a fazer-lhe um favor. Pediu ao homem que lhe emprestasse, por alguns dias, um livro raro de sua biblioteca. Escreveu: “Ele me enviou o livro imediatamente, e eu o devolvi mais ou menos uma semana depois, com uma nota expressando meu reconhecimento. Quando voltamos a nos encontrar, ele falou comigo (o que nunca fizera antes) com delicadeza. Daí por diante, sempre manifestou disposição de servir-me, de modo que nos tornamos grandes amigos. Esse é um exemplo da verdade de uma velha máxima que aprendi, a qual diz: quem lhe fez um favor estará mais disposto a fazer outro do que aquele a quem você favoreceu” [1].
Diante disso, a antevisão e a lucidez de Jesus causam assombro: “Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam e orai pelos que vos caluniam” [2].
Esse mecanismo psicológico parece ter sido expresso também na seguinte passagem do Evangelho de Tomé: “O Reino é semelhante a um pastor que tinha cem ovelhas. Uma delas, a maior, extraviou-se. Ele deixou as noventa e nove e a procurou até encontrá-la. Depois de todo esse trabalho, disse à ovelha: ‘Amo-te mais do que às noventa e nove'” [3].
Segundo a teoria da dissonância, todo o esforço empreendido pelo pastor deveria ser, de alguma forma, psicologicamente compensado ou justificado. A justificação está justamente no fato de amá-la mais do que às outras. De fato, precisa de mais amor aquele que se perdeu, para que se sinta à vontade para a reintegração a seu grupo, na unidade do rebanho.

Referências bibliográficas:
[1] FRANKLIN, Benjamin. Autobiografia.
[2] Lucas, 6:27-28.
[3] Evangelho de Tomé, Logion 107.
Ricardo Baesso de Oliveira
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