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Fé e razão à luz do Espiritismo

No senso comum (e mesmo para muitos intelectuais e filósofos), fé e razão são conceitos contraditórios. Precisamos entender que não são.

No Ocidente, a razão já era usada na Grécia Antiga há mais de 2.500 anos para explicar o mundo através do pensamento lógico. Vale notar, porém, que os próprios gregos combinavam o exercício do pensamento lógico com a crença em deuses e no sagrado. A fé é certamente mais antiga que isso, e vem mudando ao longo dos séculos. Predominantemente expressa através das religiões tradicionais, ela hoje vive uma forte secularização, na qual muitas pessoas buscam novas formas de espiritualidade individual.

Um marco para a ideia de que fé e razão são caminhos contrários é o Iluminismo, movimento do século XVIII na Europa. Ele colocou a razão humana acima da fé e da tradição. O objetivo era iluminar a sociedade contra a ignorância, criticando o poder absoluto dos reis e a forte influência da Igreja. Essas ideias explodiram de vez na prática política durante a Revolução Francesa. Os revolucionários usaram a razão humana como base para derrubar o poder da Igreja Católica e criar uma nova ordem social. A razão foi colocada no trono como guia supremo da humanidade, em substituição à revelação divina.

No Espiritismo, fé e razão nunca estiveram separadas. Colocando a existência da alma e a de Deus (tradicionalmente, questões de fé) como “a base de todo o edifício” [1], Allan Kardec vai propor uma aliança entre a ciência e a religião [2] e defender a ideia de uma “fé raciocinada” [3]. A conhecida frase “Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade” [4] e a “Profissão de fé raciocinada espírita” [5] sintetizam a posição da Doutrina Espírita.

Mais recentemente, a Igreja Católica também se voltou à discussão. A encíclica Fides et Ratio (Fé e Razão), publicada em 1998 pelo Papa João Paulo II, tem como motivação principal o combate à separação entre o saber científico-filosófico e a crença religiosa, buscando ressaltar a harmonia e a complementaridade entre ambos na busca por uma verdade universal. É interessante observar a convergência com a proposta espírita: embora partam de tradições distintas, ambas rejeitam a oposição entre fé e razão e defendem que a crença religiosa não precisa abrir mão do rigor do pensamento — a “fé raciocinada” de Kardec e a harmonia entre fé e razão da encíclica caminham, nesse ponto, na mesma direção.

Porém, como podemos entender de forma mais clara a associação de fé e razão?

Antes de tudo, é preciso compreender que elas se referem a dois aspectos diferentes da abordagem da realidade. Para ilustrar, suponhamos dois acontecimentos (dois fatos), “A” e “B”. A fé é a crença de que esses fatos estão associados. A razão é o método para investigar como os fatos estão associados. Por exemplo:

  • Fato A: eu solto um copo de vidro; Fato B: o copo se despedaça no chão. Todo mundo acha óbvio que os dois fatos estão ligados (mesmo que durante milênios não soubéssemos explicar o porquê).

Essa ideia “óbvia” é tratada no Espiritismo como um axioma (uma afirmação ou proposição aceita como verdadeira sem necessidade de demonstração): “Todo efeito tem uma causa”. Esse axioma vai ser estendido por Kardec para “Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente”. Desta forma, a ideia de causalidade está na base das proposições espíritas. Ela vai ser usada para justificar a existência de Deus, para explicar os fenômenos mediúnicos e para fundamentar a ideia das expiações associadas a erros do passado. Hoje, o pensamento sistêmico propõe que a causalidade é um fenômeno complexo, mas isso não invalida o axioma espírita.

Acontece que, diante de dois fatos (ou de um fato só, para o qual queremos alguma explicação), há outras perspectivas que devem ser consideradas, além da causalidade:

  • a correlação: os dois fatos estão associados, mas um não causa o outro. Eles podem ter causas (ou efeitos) compartilhados, mas são independentes entre si;
  • a coincidência: os dois fatos não estão associados, mas acontecem no mesmo tempo ou lugar, dando a impressão de alguma ligação entre eles.

Como distinguir essas situações — causalidade, correlação ou coincidência? É nesse ponto que entra a razão, como método de investigação. Uma vez identificada a necessidade de investigar, precisamos de ferramentas para conduzir esse exame de forma ordenada. A principal delas é o raciocínio lógico. Como exemplo do uso da lógica, temos a dedução (na qual se parte do geral para o específico — o famoso “Todo homem é mortal; Sócrates é homem; logo Sócrates é mortal”); a indução (do específico para o geral, trabalhando no campo das probabilidades) e a abdução (a criação da hipótese mais plausível para explicar um fato observado). De passagem, observemos que Kardec utilizou todos esses métodos na construção do Espiritismo.

Neste ponto, podemos entender claramente (espero) que a discussão entre fé e razão é diferente da discussão entre ciência e religião. Fé é a crença de que os fatos têm uma explicação. Razão é o método para buscar essas explicações. Por outro lado, ciência e religião são construções sociais. A diferença essencial entre as duas é em relação a quais fatos serão considerados. Enquanto a ciência se restringe a fatos observáveis pelos sentidos humanos, a religião vai focar em fatos que extrapolam a observação direta. Ambas se utilizam da fé e da razão para construir seus dogmas, suas teorias, suas hipóteses, suas conclusões. É sob essa perspectiva que não há contradição entre fé e razão, nem no fato de uma pessoa acreditar em ciência e ser religiosa.

A discussão então se move para outros pontos:

  • quais fatos a pessoa acredita que são verdadeiros, ou seja, qual a forma de crença da pessoa? Nossas crenças atuais resultam de um desenvolvimento complexo, ocorrido nesta encarnação e baseado no desenvolvimento espiritual prévio. Quando se fala que “a fé é inata” ou que “a fé não se prescreve” [6], o que se quer dizer, muitas vezes, é que a “forma de crer” (assim como a “forma de pensar” ou a “forma de se comportar”) é uma característica da personalidade atual.
  • quais as explicações a pessoa acredita que são verdadeiras? E aqui se distingue o pensamento (racional) e a aceitação (dogmática). Isso não é uma divisão entre as pessoas — todos nós somos racionais para algumas coisas e dogmáticos para outras; é uma divisão que cada um faz para as coisas na sua vida individual. Não temos capacidade, nem tempo, nem disposição para raciocinar sobre tudo, então escolhemos algumas coisas para “pensar” e outras para “aceitar”, o que nos faz seres essencialmente contraditórios e difíceis de entender.

Enfim, fé e razão não são conceitos opostos: são complementares, atuando em campos diferentes. Compreender tal relação certamente nos ajuda a ampliar nosso entendimento do mundo e de nós mesmos.

Referências bibliográficas:

[1] O Livro dos Médiuns, Parte I, Capítulo I, Item 3.
[2] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo I, Item 8.
[3] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XIX, Item 7.
[4] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Frontispício.
[5] Obras Póstumas, Parte I, Texto 1.
[6] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XIX, Item 7.

Ely Edison Matos

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