Reformar indivíduos ou instituições?
Praticamente todas as sociedades vivenciam conflitos. Desigualdade social, guerras, preconceitos, violência e criminalidade são apenas alguns dos muitos problemas enfrentados pela humanidade. Diante desse quadro, e em busca de soluções, duas visões geralmente são apresentadas: uns acreditam que é necessário que cada indivíduo progrida moralmente — indivíduos melhores fariam uma sociedade melhor; outros acreditam que a sociedade é que deve ser reformada — uma sociedade melhor formaria indivíduos melhores. Essas duas visões, muitas vezes levadas ao extremo, permeiam as relações sociais, a política e a religião. Neste texto, ainda que muito brevemente, buscaremos entender a proposta de Allan Kardec para essa questão. A proposta espírita, como veremos, não se reduz a apenas uma dessas vias, mas aponta para a interação entre a transformação moral do indivíduo e o aperfeiçoamento das instituições humanas.

Para Kardec, a humanidade tem realizado incontestáveis progressos. Os homens, com sua inteligência, chegaram a resultados que jamais haviam alcançado, do ponto de vista das ciências, das artes e do bem-estar material. No entanto, resta-lhes ainda um imenso progresso a realizar: o progresso moral, refletido na caridade, na fraternidade e na solidariedade. Segundo Kardec, esse progresso não será alcançado com as crenças predominantes na atualidade, nem com instituições antiquadas. Não basta apenas desenvolver a inteligência: é preciso elevar também o sentimento. Para isso, é necessário destruir tudo o que superexcite o egoísmo e o orgulho [1].
Quando examina os caracteres de uma possível civilização completa [2], Allan Kardec afirma que, entre duas nações que tenham chegado ao ápice da escala social, somente pode ser considerada mais civilizada, na legítima acepção do termo, aquela em que existam menos egoísmo, menos cobiça e menos orgulho; em que os hábitos sejam mais intelectuais e morais do que materiais; em que haja mais bondade, boa-fé, benevolência e generosidade recíprocas. Ele enfatiza também a necessidade de superação dos preconceitos de casta e de nascimento, a abolição de privilégios, a busca por uma justiça mais imparcial e a diminuição das desigualdades sociais, que privam muitos do necessário.
Mas como extirpar o egoísmo do sentimento humano? Kardec esclarece: “À medida que os homens se instruem acerca das coisas espirituais, menos valor dão às coisas materiais. Depois, necessário é que se reformem as instituições humanas que o entretêm e excitam. Isso depende da educação” [3]. Ou seja, o movimento humano em direção à saúde social estrutura-se em duas ações bem definidas:
- Esclarecimento acerca das coisas espirituais, a fim de que os homens deem menos valor às coisas materiais.
- Reforma das instituições, que, na atualidade, entretêm e excitam o egoísmo.
O que seriam as “coisas espirituais”? A Doutrina Espírita oferece um conjunto de ideias que capacitam o ser humano a inteirar-se de sua natureza espiritual, de sua origem, de seu destino, das vidas sucessivas, bem como das íntimas e permanentes relações dos Espíritos encarnados com os Espíritos desencarnados. Segundo Léon Denis [4], o estudo mais necessário, para nós, é o de nós mesmos. O que, antes de tudo, nos importa saber é o que somos. Sendo Espíritos, tudo aquilo que se relaciona à nossa origem, à nossa natureza, à nossa finalidade e à nossa continuidade existencial pode ser compreendido como parte das “coisas espirituais”. E, nesse ponto, o Espiritismo explica a necessidade do progresso moral individual, do crescimento espiritual por meio da superação das provas e da aquisição de conhecimento.
E quanto à reforma das instituições? Lembremos que a organização e a coesão social são mantidas pelas instituições sociais. São elas que transmitem regras, valores e normas de convivência, contribuindo para formar os cidadãos dentro de determinado grupo social. As instituições sociais atuam no processo de socialização, visando à adequação de cada indivíduo ao grupo social. Podemos considerar como instituições sociais, dentre outras, o Estado, a família, a escola e a religião.
Apesar de Emmanuel mostrar (em 1940) a necessidade de que os mais esclarecidos cooperem na transformação para melhor do meio em que vivem, elevando as condições materiais e morais de todos os que vivem em sua zona de influência [5], observamos ainda uma significativa carência de debates espíritas em torno dos fatores sociais dos problemas humanos. Muitas palestras e seminários espíritas ainda tendem a enfatizar predominantemente os fatores pessoais, psíquicos ou espirituais da corporeidade, deixando em segundo plano os elementos sociais implicados no sofrimento e nas decisões do Espírito encarnado.
Nesse sentido, a reforma das instituições públicas (o Estado) passa por uma profunda transformação ética da ação política e administrativa, bem como por uma firme disposição de estabelecer a plena justiça social, preocupada com o bem-estar de todos. Naturalmente, isso implica um posicionamento político que esteja acima das questões meramente partidárias ou de interesses de grupos específicos.
A reforma da família propõe um modelo que supere as visões “autoritário” versus “permissivo”. É preciso encontrar o “caminho do meio”, em que a autoridade dos pais se traduza em regras e expectativas claras, consistentes e explicáveis. Não há espaço para “porque eu mandei” ou “porque eu quero”, nem para “faça como você quiser”. É preciso criar espaço para a flexibilidade, em que o elogio, o esclarecimento e o perdão valham mais do que a punição; em que os pais valorizem as sugestões e as perspectivas dos filhos; em que a criança possa desenvolver seu potencial e sua autonomia sob acompanhamento atento.
A reforma da escola — talvez a reforma mais consensual de todas — implica profunda revisão dos objetivos da educação. Nesse contexto, o número de sugestões oferecidas por educadores e filósofos é enorme. Há um sentimento generalizado de que a educação não deve concentrar-se apenas em aspectos puramente intelectuais, mas também incluir o aprendizado sobre o funcionamento da mente, a dinâmica das emoções, a gestão de conflitos, a responsabilidade social e a ética no convívio com os demais.
Por fim, a reforma das religiões — diferentemente da educação, talvez a reforma menos consensual de todas — implica a superação do fundamentalismo, gerador de intolerância, fanatismo e, em muitos casos, violência. Sem abandonar os mitos fundadores das religiões (pois são essenciais em cada religião), os religiosos deveriam colocá-los em seu devido lugar, extraindo deles as lições éticas e afetivas de que são portadores e deixando para a ciência a explicação dos fenômenos naturais. Nesse sentido, Allan Kardec já propunha uma aliança da ciência com a religião [6], reconhecendo a importância e o papel de cada uma para o pensamento humano.
Como vemos, para Kardec não existe apenas uma via para o progresso social. Não se trata de esperar apenas por uma reforma individual, íntima e consciencial de cada pessoa, nem de imaginar que uma reforma forçada das instituições, como já se tentou várias vezes na história humana, traria a solução definitiva. Precisamos tanto de indivíduos mais conscientes atuando na reforma das instituições quanto de instituições mais éticas estimulando a reforma dos indivíduos.

Referências bibliográficas:
[1] A Gênese, Capítulo XVIII, Item 5.
[2] O Livro dos Espíritos, Questão 793.
[3] O Livro dos Espíritos, Questão 914.
[4] Cristianismo e Espiritismo.
[5] O Consolador, Questão 121.
[6] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo I, Item 8.
Ely Edison Matos
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