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Vida no plano espiritual

“O mundo espírita é o mundo normal, primitivo, eterno, preexistente e sobrevivente a tudo.” (Allan Kardec) [1]

Um dos grandes objetivos do estudo da Doutrina Espírita é o conhecimento da realidade espiritual. Compreendemos que somos Espíritos temporariamente reencarnados em um corpo material e que a morte desse corpo nos coloca mais diretamente em contato com o mundo dos Espíritos, ou plano espiritual. Mas como será esse mundo?

Subjugados pela influência da matéria, “perdemos” os sentidos que nos permitiriam perceber a vida espiritual de forma mais clara. A mediunidade, porém, nos possibilita ter uma ideia, ainda que pálida, desse outro plano existencial. Apesar das limitações do fenômeno mediúnico, as comunicações de milhares de Espíritos permitem traçar um esboço dos principais aspectos do mundo espiritual.

Talvez a primeira emoção do Espírito que retorna ao plano espiritual após a morte do corpo físico seja a surpresa. Mesmo aqueles que, durante a encarnação, estudaram as questões espirituais costumam relatar seu espanto diante da nova realidade. O Espírito recém-desencarnado assemelha-se a um exilado que retorna à sua pátria depois de longas décadas. Tudo lhe parece novo ou renovado.

Como ocorre em todas as situações relacionadas aos Espíritos, o período de readaptação é variável. Os desencarnados representam uma ampla gama de seres em diferentes graus de evolução intelecto-moral. Quanto menos evoluído o ser, mais preso estará à influência da matéria e menor será sua percepção da dimensão em que se encontra. Quanto mais evoluído, mais facilmente sua consciência se amplia e se adapta, possibilitando percepções mais eficientes.

De modo geral, o desencarnado mantém algumas de suas funções semelhantes às físicas, mas começa a reconhecer novas formas de percepção, graças à maior sensibilidade do perispírito, agora desprovido da barreira da matéria mais grosseira.

Esse período de “perturbação” pode ser mais ou menos longo. À semelhança da gestação e dos primeiros anos de vida no processo reencarnatório, a fase de readaptação influencia profundamente as condições do Espírito em sua nova situação.

Ao reencontrar outros Espíritos com os quais conviveu psiquicamente durante a encarnação, passa a perceber mais claramente a atuação da chamada lei de causa e efeito. Tranquilo ou culpado, otimista ou aflito, esperançoso ou cético, pacífico ou violento, humilde ou orgulhoso, cada qual sente de forma intensa a influência do próprio pensamento, bem como a atuação mental do grupo ao qual se vincula.

O manejo do pensamento constitui, portanto, uma das questões fundamentais da vida no plano espiritual. Desencarnado, o Espírito percebe que os processos da imaginação, da reflexão, da meditação, da concentração e da introspecção não são meras abstrações. Eles representam formas concretas de atuação sobre a matéria espiritual e meios essenciais de comunicação entre os Espíritos.

Ainda que utilize gestos ou palavras, o Espírito aprende gradualmente que a verdadeira ação é, em essência, mental.

É também o estado mental — incluindo aspectos psíquicos, emocionais e conscienciais — que define as características da forma dos Espíritos. A aparência individual reflete o padrão mental dominante. Traços masculinos, femininos ou neutros, juventude ou maturidade, feições ligadas à cultura vivida na última encarnação, tonalidade da voz e outros aspectos relacionam-se diretamente à condição interior do ser.

Essa condição reflete o maior ou menor apego à forma física anteriormente utilizada, bem como seus desejos, impulsos e autoimagem. Por isso, durante certo tempo, é comum que o Espírito mantenha a aparência da última encarnação, até aprender a manejar o pensamento sobre a própria forma.

Além da aparência, essas condições mentais também influenciam aspectos mais concretos da vida espiritual, como alimentação, vestuário, transporte, atividades, enfermidades e até mesmo a violência.

A diversidade de obras mediúnicas e comunicações espirituais revela um mundo espiritual extremamente variado. Assim como, entre os encarnados, encontramos grande diversidade moral, social, intelectual, política e cultural, não é surpresa que o mesmo ocorra no plano espiritual. Afinal, os Espíritos são, em essência, a continuidade dos seres humanos após a desencarnação.

Por isso, qualquer concepção prévia sobre o mundo espiritual deve ser evitada. A regra geral, se é possível estabelecer alguma, é que todas as situações estão diretamente ligadas às condições individuais e coletivas dos Espíritos.

Encontramos, assim, Espíritos que se alimentam de resíduos fluídicos mais densos, enquanto outros já aprenderam a absorver energia por meio de processos semelhantes à respiração. Alguns necessitam de vestimentas produzidas de forma material, enquanto outros moldam suas roupas por meio do próprio perispírito.

Há Espíritos que utilizam meios de transporte adaptados às condições dos planos em que habitam, enquanto outros se locomovem por meio da volitação, guiada pelo pensamento. Muitos realizam atividades físicas diversas — como varrer, correr, lutar ou cantar —, incluindo práticas que, por analogia, poderiam ser chamadas de sexuais.

Também existem Espíritos que adoecem, apresentando lesões em sua estrutura perispiritual, bem como aqueles que cometem violências contra outros, provocando danos semelhantes.

Em geral, essas situações referem-se a Espíritos ainda fortemente influenciados pela matéria e situados em regiões próximas ao plano físico, muitas vezes em convivência com os encarnados. À medida que ocorre o progresso espiritual, as reencarnações tornam-se mais espaçadas, a influência material diminui e os Espíritos passam a habitar planos superiores, mais afastados da vida terrena.

No plano espiritual imediatamente posterior à experiência física, muitas sociedades humanas desencarnadas permanecem fortemente ligadas aos interesses terrenos. Essas coletividades mantêm estruturas sociais e políticas semelhantes às da Terra, frequentemente refletindo o período histórico em que viveram.

Tais Espíritos não são, necessariamente, moralmente inferiores. Seus pensamentos e sentimentos, contudo, permanecem voltados às questões materiais. Família, propriedade, negócios, dinheiro, herança, vingança, religião, política, sexo e vícios são exemplos de temas que ocupam o espaço mental e emocional de bilhões de desencarnados, ainda incapazes de se desligar dessas preocupações.

Enfim, a vida no plano espiritual é rica, complexa e diversificada. Para nós, encarnados, parte da resposta à famosa pergunta “para onde vamos?” relaciona-se às respostas que damos, hoje, às perguntas: “onde estamos?”, “o que estamos fazendo?” e “o que estamos sentindo?”.

Quanto mais conscientes somos de nossa situação atual, de nossos pensamentos e sentimentos, menos surpresas encontraremos em nossa realidade futura.

Referências bibliográficas:

[1] O Livro dos Espíritos, Allan Kardec. Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, Item 6.

Ely Edison Matos

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