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A dimensão social da moral

Um dos desafios no estudo dos textos espíritas é compreender o sentido de certas palavras. Como sabemos, as ideias são muitas e variadas, mas as palavras para representá-las são poucas. Há também a questão do tempo: os textos de Allan Kardec têm mais de 150 anos e as principais obras da série Nosso Lar, do Espírito André Luiz – fonte inesgotável de estudos – têm mais de 60 anos. Se acrescentarmos o fato de que o contexto sociocultural em que tais textos foram escritos é diferente do atual, teremos uma ideia da dificuldade encontrada pelos estudantes espíritas.

Uma destas palavras é “moral”. A palavra “moral” deriva do latim moralis, que significa “maneira, caráter, comportamento próprio”. É geralmente definida como o conjunto de normas, valores e princípios que orientam o comportamento humano, sendo um conceito que varia de acordo com a cultura, o tempo, a localização geográfica, a ideologia dominante, entre outros. A moral estabelece um entendimento coletivo do que é certo ou errado.

Kardec, porém, usou o termo “moral” com dois sentidos diferentes [1]. Em alguns textos, o sentido de “moral” está associado a mental ou psíquico (por exemplo, na expressão “mundo moral”). Em outros textos, “moral” está associada a regras de conduta, bons costumes, virtudes éticas (ou seja, mais próximo ao sentido comum da palavra).

Mesmo considerando o sentido comum, ainda é preciso tomar cuidado na interpretação. Para o Espiritismo (e para as religiões em geral) a ideia de “moral” está associada a leis fixas, imutáveis, que vigoram em todos os tempos e em todos os lugares. Diferente do sentido comum, que considera a moral variável, as chamadas “leis morais” seriam sempre as mesmas. O papel das religiões seria revelar estas leis morais, e o papel das pessoas é adaptar seu comportamento a estas leis morais.

Esta ideia de uma moral fixa tem implicações profundas e consequências complexas. Aqui, vamos nos ater a uma só: se o ideal de “perfeição moral” já está pré-estabelecido, é possível se falar em “evolução moral”. Evoluir moralmente seria ter um comportamento cada vez mais próximo a este ideal estabelecido. Uma descrição parcial deste ideal está no texto “O homem de bem” [2].

Isto leva a uma questão grave: como avaliar a evolução moral, seja de um indivíduo, seja de uma sociedade? A resposta simplista é: basta comparar com o ideal estabelecido. Porém, quem está autorizado (ou capacitado) a fazer esta comparação? Somente alguém que tivesse percorrido toda a escala e alcançado a perfeição moral poderia fazer isso. Pelo que sabemos, não existe Espírito assim na Terra. Outros acham que só Deus pode fazer tal avaliação (ou julgamento); mas como Deus expressaria essa avaliação? Para tentar resolver isso, as religiões criaram as noções de “leis divinas”, pecados, recompensas e punições, carma, causa e efeito, etc. Isso também não é plenamente satisfatório, se consideramos que as religiões também são criações humanas.

Por outro lado, é preciso considerar que há pelo menos duas dimensões diferentes para a questão moral. Há uma dimensão individual e uma dimensão social. Dizemos que a dimensão individual é teórica, e a dimensão social é prática. A dimensão individual é teórica porque, em tese, ela se refere à “evolução moral” que o Espírito tenha alcançado. Como sabemos, essa evolução se dá através, principalmente, das experiências reencarnatórias, nos erros e acertos, nas alegrias e nas dores vivenciadas pelo Espírito. O progresso intelectual torna o Espírito cada vez mais capaz de avaliar seus próprios atos, de entender as consequências – boas e ruins – de suas atitudes, de associar determinados comportamentos a um estado de sofrimento, de entender o que deve buscar e o que deve evitar. Tudo isso vai dando origem a uma “consciência moral”, a uma “bússola moral interna”, que indica para onde o Espírito deve se dirigir, como deve agir nesta ou naquela situação.

Porém, a esta altura deve estar claro que a ideia de “moral” sempre vai envolver outras pessoas. Essa é a dimensão social da moral. Não há como falar em “moral”, considerando-se um indivíduo isolado. “Moral” é fruto das relações entre indivíduos. Conduta moral, comportamento moral, condição moral, etc., não é algo que pode ser medido em um único indivíduo; estes “valores morais” só podem ser avaliados em um dado contexto. Não existe medida para a “evolução moral” de um náufrago isolado numa ilha – simplesmente não há o que avaliar. Por isso dizemos que a dimensão social é prática: não importa quanto cada pessoa se julgue “evoluída moralmente” – é o comportamento com relação às outras pessoas (incluindo a conduta social) que vai efetivamente dizer a condição de cada um. Isto não tem novidade. A moral cristã – adotada pelo Espiritismo [3] – tem por base o “amor ao próximo”. Sem “próximo”, ela perde muito do seu sentido ou finalidade.

Há várias consequências quando consideramos a questão moral sob a perspectiva social. Citemos apenas 3:

  • As ideias de “maturidade do senso moral”, de “transformação moral” e de “domínio das más inclinações”, apresentados no texto “Os bons espíritas” [4], devem ser abordadas sob a perspectiva prática: quais os efeitos nossas palavras e atitudes estão gerando nas pessoas próximas a nós e na sociedade em geral? Embora a autorreflexão seja fundamental, costumamos nos iludir muito em relação à nossa própria condição moral. Racionalizamos, explicamos e justificamos nosso comportamento, mas poucas vezes o modificamos efetivamente.
  • Como Espíritos encarnados, precisamos entender que nosso comportamento sofre influências de diversos tipos: biológicos, educacionais, familiares, culturais, emocionais, psicológicos, sociais, espirituais, entre outros. Isto torna quase impossível reconhecer nossa condição moral “real” (ou espiritual), uma vez que a experiência reencarnatória acontece, via de regra, em condições muito diferentes de condições que já vivemos antes. A interação com os elementos desta nova vida” (família, escola, condição social, financeira, biológica, etc.) nos permite, como Espíritos, a vivência de experiências “inéditas”, que nos tocam em regiões (mentais, emocionais, cognitivas) que não foram tocadas antes e que, portanto, possibilitam o surgimento de fenômenos que não havíamos experimentado ainda. Isso pode fazer com que tenhamos, em certas situações, comportamentos contrários à nossa “expectativa moral”. Nesses momentos é que devemos aprender algo.
  • Moral é sobretudo reconhecer a diferença entre o bem e o mal. Quando houver dificuldade em diferenciar os dois, lembremos da proposta do Ministro Sânzio [5]: “o mal será sempre representado por aquela triste vocação do bem unicamente para nós mesmos”.

Relembrar a dimensão social da moral – embora ela seja óbvia sob certa perspectiva – pode nos ajudar a melhorar a compreensão sobre nós mesmos, permitindo que reconheçamos o quanto estamos conectados e quanto somos codependentes de muitos outros Espíritos. A grave questão da avaliação moral, que apresentamos antes, pode então ter um ponto de partida, se nos perguntarmos: o que estou fazendo é bom para quem?


Referências bibliográficas:
[1] Dicionário Kardec. Carlos Mourão Jr. Ely Matos. Ricardo Baesso.
[2] O Evangelho Segundo o Espiritismo. Allan Kardec. Cap. 17. Item 3.
[3] A Gênese. Allan Kardec. Cap. 1. Item 56.
[4] O Evangelho Segundo o Espiritismo. Allan Kardec. Cap. 17. Item 4.
[5] Ação e Reação. André Luiz, Francisco Cândido Xavier. Cap. 7.

Ely Edison Matos

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