Tende bom ânimo
“Tenho-vos dito isto para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” [1].
Entre as últimas palavras de Jesus aos discípulos, registradas no Evangelho de João, há uma frase que atravessa os séculos com força de consolo: “Tende bom ânimo, eu venci o mundo”.

Foram ditas na véspera da crucificação, quando o Mestre sabia do sofrimento iminente e, ainda assim, falava de vitória. Não sobre os homens, mas sobre o mundo: sobre o medo, a matéria, a ilusão de que a dor é o fim.
O que significa, para o espírita de hoje, vencer o mundo? Não é fugir dele, nem negar suas dores. É compreender que a vida terrena é passagem de aprendizado, na qual cada prova carrega uma lição. Allan Kardec lembra, em O Livro dos Espíritos, que as provas da existência são meios de purificação e que o Espírito encarna para progredir [2]. Vencer o mundo, portanto, é vencer a si mesmo: os impulsos, os ressentimentos, o apego aos bens que ficam, o terror diante da morte, que não existe.
Jesus venceu o mundo porque não se deixou dominar por ele. Diante da traição, amou. Diante da injustiça, perdoou. Diante da agonia, orou. Sua vitória não foi política nem militar; foi moral e, por isso, permanece. O Evangelho Segundo o Espiritismo mostra que essa vitória está ao alcance de todos, pois se constrói em gestos simples: a caridade, a paciência, o perdão dado antes de ser pedido [3].
Muitos de nós, porém, vivemos acovardados: tememos o amanhã, lamentamos o ontem, medimos a felicidade pelo que possuímos. A palavra de Jesus é um convite direto a esse estado de alma: acalmem-se. A calma que Ele propõe não é indiferença; é confiança. É a serenidade de quem sabe que o Pai não abandona nenhum de seus filhos, que nada acontece sem propósito e que a morte é apenas a porta para a vida verdadeira.
Na prática, essa confiança se exercita. Quando a doença chega, em vez de perguntar apenas “por que eu?”, podemos perguntar “o que esta prova quer ensinar?”. Quando alguém nos magoa, lembremos que o perdão liberta primeiro quem perdoa. Quando as notícias do dia angustiam, façamos o que está ao alcance: orar, servir, ajudar o próximo, sustentar a esperança com atitude. O mundo vencido por Jesus é o mesmo que nos tenta vencer todos os dias, e a arma contra ele é a mesma que Ele usou: o amor em ação.
Há nessas palavras um consolo especial para quem perdeu entes queridos. Se Jesus venceu o mundo, venceu também a morte. A sobrevivência da alma, comprovada pela ciência espírita e confirmada pelos Espíritos Superiores, transforma o adeus em até breve. Quem parte não desapareceu; apenas passou adiante e continua ligado a nós pelos laços do afeto, que a morte não rompe.
“Acalmai-vos, eu venci o mundo” é, no fundo, promessa e convite. A promessa: a luta contra as provações já tem um vencedor que nos mostra o caminho. O convite: sigamos por ele, com bom ânimo, sabendo que as tribulações do planeta são escolas da alma. O mundo continua difícil, mas não é o destino. Quem crê nisso caminha mais leve, ama mais forte e sofre menos, porque sofre com sentido.
Que cada um de nós, nos dias de provação, ouça de novo essa voz serena: tenham confiança. A vitória já foi semeada. Cabe a nós regá-la, em nós mesmos, com fé, trabalho e amor.
Referências bibliográficas:
[1] Evangelho segundo João, 16:33.
[2] O Livro dos Espíritos.
[3] O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Fernando Emílio Ferraz Santos
Página 3