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O verdadeiro Natal para o espírita

Dezembro chega sempre com pressa. As ruas se enchem de luzes, as lojas, de gente, e a nossa agenda, de compromissos. Há a ceia para organizar, o amigo secreto do trabalho, a lista de presentes que nunca fecha, a família que vem de longe. No meio de tanto movimento, quase ninguém para e faz a pergunta mais simples de todas: de quem é mesmo esta festa?

O aniversariante, como da primeira vez, corre o risco de ficar do lado de fora.

Lucas conta que Maria deu à luz o seu filho e o deitou numa manjedoura, “porque não havia lugar para eles na hospedaria” [1]. Não era maldade dos hospedeiros. A cidade estava cheia, e cada um cuidava das próprias urgências. Dois mil anos depois, a cena se repete de outro jeito. A hospedaria somos nós, e muitas vezes estamos lotados: de preocupações, de mágoas antigas, de tarefas, de barulho. Jesus bate, e a resposta educada continua a mesma. Não há lugar.

Para o espírita, o Natal tem um sentido que vai além da data. Quando Kardec perguntou aos Espíritos qual era o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem para lhe servir de guia e modelo, a resposta coube numa palavra: “Jesus” [2]. Se Ele é o modelo, o Natal deixa de ser apenas a lembrança de um nascimento distante e passa a ser um convite muito pessoal. O que celebramos não é só o menino que nasceu em Belém, mas a possibilidade de que algo d’Ele nasça em nós.

Emmanuel, em mensagens reunidas por Chico Xavier na Antologia Mediúnica do Natal [3], insiste nessa ideia nos pedindo que, ao celebrar o Natal, não guardemos apenas a nossa fé em Jesus, mas que nos lembremos também da fé que Jesus deposita em nós e propõe transformar todos os dias da vida num Natal incessante. Vale a pena demorar um pouco nesse pensamento. Ele confia em nós. Apesar das nossas quedas, das promessas que não cumprimos, dos anos em que esquecemos d’Ele no resto do calendário, Ele continua acreditando que podemos ser melhores.

Isso não significa que o espírita deva fugir da festa. A mesa posta, o abraço demorado, a criança que não consegue dormir de ansiedade, tudo isso é bonito e faz bem à alma. O problema nunca foi a alegria. O problema é quando a alegria se fecha em si mesma e esquece quem ficou do lado de fora da porta.

E sempre há alguém do lado de fora. O idoso que vai passar a noite sozinho, olhando a televisão. A família que não terá ceia. O vizinho que ninguém cumprimenta. O parente com quem rompemos há anos e cujo nome já nem pronunciamos em casa. Jesus foi claro: tudo o que fizermos a um desses pequeninos, é a Ele que estaremos fazendo [4]. Talvez o verdadeiro presente de Natal seja um telefonema, uma visita, um prato a mais na mesa, uma tarde de companhia. Coisas que não se embrulham, mas que ficam para sempre. Não é à toa que a Doutrina resume o caminho numa frase que todo espírita conhece de cor: “Fora da caridade não há salvação” [5].

Há também os que choram no Natal. Para muitos, dezembro é o mês da cadeira vazia, da voz que faz falta, do lugar à mesa que ninguém tem coragem de ocupar. A esses, o Espiritismo oferece um consolo: quem partiu não deixou de existir, e o amor não se desfaz com a morte do corpo. Uma prece feita com carinho naquela noite alcança quem amamos, e a saudade, em vez de ferida aberta, pode virar ponte. Quem sabe, enquanto a família se reúne, eles também estejam por perto, felizes por nos ver juntos.

Mas o centro do Natal espírita é outro, e é o mais exigente. Kardec escreveu que se reconhece o verdadeiro espírita “pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más” [6]. Ou seja, o Natal que importa acontece por dentro. É quando decidimos perdoar aquela ofensa que carregamos há tempo demais. Quando trocamos a crítica pela compreensão, a impaciência pela escuta, o orgulho pelo primeiro passo. É um nascimento silencioso, sem anjos nem estrela no céu, mas talvez seja exatamente esse o que mais alegra o Mestre.

O Espírito de Verdade deixou aos espíritas dois ensinamentos, nesta ordem: “amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo” [7]. Primeiro o amor. Não é por acaso. De nada adianta conhecer bem a Doutrina se o coração continua fechado como a hospedaria de Belém.

Por isso, neste Natal, antes de arrumar a árvore, talvez valha arrumar outro lugar. Abrir um espaço, nem que seja pequeno, onde Jesus possa entrar. Ele não exige palácio. Da primeira vez, aceitou uma manjedoura de palha, num canto de estrebaria. Continua não pedindo muito: só um pouco de lugar.

Que, quando as luzes da rua se apagarem e os enfeites voltarem para as caixas, alguma coisa continue acesa em nós. Esse é o verdadeiro Natal. O que não termina no dia 26.

Feliz Natal, com Jesus.

Referências bibliográficas:
[1] Evangelho segundo Lucas, 2:7.
[2] O Livro dos Espíritos, Questão 625.
[3] Antologia Mediúnica do Natal, Espíritos diversos (psicografia de Francisco Cândido Xavier), mensagens de Emmanuel “Meditando o Natal” e “Recordação do Natal”.
[4] Evangelho segundo Mateus, 25:40.
[5] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XV, Item 10.
[6] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XVII, Item 4.
[7] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo VI, Item 5.

Paulo Henrique de Assis

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