Vazio existencial e desgosto pela vida: como enfrentar
Você já sentiu, mesmo num dia comum em que nada de errado aconteceu, um aperto no peito? Uma sensação estranha de estar meio sem rumo, como um navio à deriva no meio do oceano, sentindo que falta algo, mas sem conseguir dar nome ao problema?

Se a resposta for sim, saiba de uma coisa: ninguém está imune a isso. Em algum momento da vida, por mais ou menos tempo, todos nós nos deparamos com o chamado vazio existencial ou com um certo desgosto pela vida.
Como dizem na área da saúde: um bom diagnóstico é meio caminho andado para a cura. Quando damos nome ao problema, identificamos sua origem e compreendemos como ele se desenvolve, fica muito mais fácil traçar um plano de ação concreto. E é exatamente isso que faremos aqui: entender de onde vem esse vazio e como a Doutrina Espírita e o Evangelho de Jesus nos oferecem ferramentas práticas para superá-lo de verdade.
Para começar essa investigação, vale a pena recorrer a O Livro dos Espíritos. Na questão 943, Allan Kardec é extremamente direto ao perguntar sobre a origem do desgosto pela vida que se apodera de algumas pessoas sem motivos plausíveis (diferentemente, é claro, das situações normais de dor, perda ou calamidade). E a resposta dos Espíritos Superiores não vem com rodeios. Às vezes, a espiritualidade nos dá umas “lambadas” amorosas para nos acordar. Eles respondem que esse desgosto é: “Efeito da ociosidade, da falta de fé e, não raro, da saciedade” [1].
Vamos desmembrar esses três pontos:
- Ociosidade: Não significa apenas “não fazer nada”. Trata-se de não estar se colocando no mundo de forma útil. É não empregar as habilidades, dons e talentos que Deus nos deu. Nós podemos enganar o mundo inteiro, mas não a nós mesmos. Lá no fundo, nosso Espírito sabe quando estamos vivendo abaixo do nosso potencial.
- Falta de fé: Não se trata de simplesmente se declarar espírita, católico ou evangélico. Trata-se da ausência de uma fé viva, ativa e dinamizadora, que se traduz em atitudes diárias e não em meros rótulos religiosos.
- Saciedade: Como assim saciedade? A saciedade aqui se refere à acomodação com os desejos materiais básicos. Muitas vezes, conquistamos o mínimo para sobreviver – um teto, comida, um certo conforto – e dizemos: “Pronto, agora vou descansar, ninguém é de ferro”.
O problema é que somos Espíritos imortais, herdeiros do Reino de Deus. Quando nos acomodamos com tão pouco, surge um desalinhamento profundo entre o que nossa alma necessita para evoluir e o que estamos oferecendo a ela no dia a dia.
No Evangelho de Mateus, Jesus nos apresenta a Parábola dos Talentos [2], que ganha um sentido muito claro quando analisada à luz do Espiritismo. Um homem, ao viajar, confia seus bens aos seus servos: a um dá cinco talentos, a outro dois e a outro um – a cada qual segundo a sua capacidade. Deus nunca nos sobrecarrega com responsabilidades além do que aguentamos, mas também não espera pouco de nós.
O servo que recebeu cinco talentos negociou e produziu mais cinco. O que recebeu dois produziu mais dois. Ambos foram elogiados por seu senhor: “Bem está, servo bom e fiel…” [3]. Porém, o servo que recebeu apenas um talento, com medo de errar e alegando que o senhor era rigoroso, cavou um buraco na terra e escondeu o dinheiro. Quando o senhor voltou, devolveu o talento intacto.
Repare num detalhe crucial: esse servo não usou o talento para roubar, nem para prejudicar ninguém, nem o gastou com vícios ou para satisfação pessoal. Ele simplesmente não fez nada. Manteve-se inativo. E a resposta do senhor foi dura: chamou-o de “servo mau e negligente” [4] e o condenou a choro e ranger de dentes.
Todos nós fomos dotados por Deus de virtudes, recursos, inteligência e oportunidades únicas. A pergunta que precisamos nos fazer todos os dias é: o que estamos fazendo com os talentos que nos foram emprestados? Estamos multiplicando esses recursos através da caridade e do trabalho útil, ou estamos apenas devolvendo a vida sem nenhum fruto adicionado?
Em várias passagens, o Evangelho nos alerta sobre a gravidade da omissão:
- Jesus e a figueira estéril: Ao procurar frutos em uma figueira cheia de folhas e não encontrar nada, o Mestre a seca. As folhas representam a aparência, a casca, o discurso religioso bonito; os frutos representam as obras reais.
- A justiça dos escribas e fariseus: Jesus avisa que, se a nossa justiça não exceder a dos religiosos formais, não entraremos no Reino dos Céus.
- Servos inúteis: O Evangelho nos lembra de que fazer apenas aquilo a que somos estritamente obrigados faz de nós “servos inúteis” [5]. A virtude exige a iniciativa própria, o ir além, o fazer o bem sem ser empurrado pelas circunstâncias.
Nós somos constituídos de uma dimensão material e de uma dimensão espiritual. Quando devotamos cem por cento do nosso tempo, energia e preocupação apenas às necessidades da matéria (comida, status, lazer fútil, bens materiais), a nossa dimensão espiritual fica completamente desnutrida. É exatamente esse abismo que gera o “rombo” do vazio existencial. Jesus disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá” [6]. O mundo consegue preencher os nossos sentidos físicos por alguns instantes, mas não consegue preencher a alma.
Se, ao ler tudo isso, você sentiu um desconforto interno e percebeu que tem vivido no “modo automático”, parabéns: esse é o primeiro passo para a transformação.
No livro Autodescobrimento, Joana de Ângelis estabelece três requisitos fundamentais que precisam ser rigorosamente respeitados por quem deseja passar por um processo sério de renovação pessoal:
- Insatisfação consciente: É o choque de realidade. É o sentimento de desconforto com a situação atual, percebendo que a forma como se está vivendo não é suficiente. Enquanto a pessoa se comprazer na mediocridade ou se vitimizar atrás de diagnósticos e desculpas sem buscar sair do lugar, nada muda.
- Desejo sincero de mudança: Estar insatisfeito não basta; é preciso querer mudar de verdade. Foi por isso que Jesus perguntava aos cegos e paralíticos que o procuravam: “Que queres que eu te faça?” [7]. Parece uma pergunta óbvia, mas não é. Muitas pessoas se afeiçoam aos seus próprios sofrimentos e vícios porque eles trazem algum tipo de ganho secundário (como atenção, autopiedade ou fuga de responsabilidades). Mudar exige romper com zonas de conforto que muitas vezes nos alimentam de forma doentia.
- Persistência no tentame: Esta é a etapa em que a maioria fraqueja. Começar uma rotina de estudos, de caridade ou de reforma íntima no impulso da empolgação é fácil; o difícil é manter a constância quando surgem as primeiras dificuldades, o cansaço do trabalho ou as tentações da rotina. A mudança exige esforço continuado e reiteração diária.
A verdadeira autoaceitação não significa acomodação. Aceitar-se não é dizer “eu sou assim mesmo e não vou mudar”. Aceitar-se é encarar a si mesmo de frente, reconhecendo honestamente as próprias qualidades para exercitá-las, e identificando as próprias sombras e vícios não para se punir, mas para colocar as mãos na massa com o objetivo de vencê-los.
Vivenciar a prática espírita e cristã de verdade é justamente isso: não é fugir do mundo, mas viver no mundo sem pertencer às suas ilusões. É sair da ociosidade, multiplicar os talentos recebidos e entender que fomos criados para voar alto. Quando colocamos nossos dons a serviço do bem e mantemos a mente conectada com o Alto, o vazio existencial desaparece, dando lugar a uma paz profunda e à certeza de estarmos no caminho certo.
Referências bibliográficas:
[1] O Livro dos Espíritos, Questão 943.
[2] Mateus, 25:14-30.
[3] Mateus, 25:21.
[4] Mateus, 25:26.
[5] Lucas, 17:10.
[6] João, 14:27.
[7] Marcos, 10:51.
Caio Almeida
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