Será errado notar os defeitos dos outros?
Há, na literatura espírita contemporânea, um risco sutil que merece ser discutido com franqueza nas casas espíritas: o de transformar o legítimo convite à reforma íntima em uma espécie de silêncio moral generalizado, no qual apontar qualquer falha alheia passa a ser visto, por si só, como sinal de imaturidade espiritual. Foi com esse risco em mente que se impôs a necessidade de colocar lado a lado duas vozes da Doutrina que, em uma primeira leitura, parecem opor-se: Joanna de Ângelis, no capítulo “Complexos e projeções”, de Atitudes Renovadas, e o Espírito São Luís, no Capítulo X de O Evangelho Segundo o Espiritismo.

A advertência de Joanna
Joanna de Ângelis é incisiva ao descrever o mecanismo psicológico da projeção — aquele em que o indivíduo, incapaz de reconhecer as próprias fragilidades, passa a enxergá-las, amplificadas, no comportamento alheio. Em suas palavras, é comum que a pessoa fragilizada examine o próximo “como se ele fosse um espelho no qual a imagem própria apresenta-se inversa” [1], de modo que, conclui a autora espiritual, as observações que fazemos sobre os outros frequentemente revelam mais sobre nós mesmos do que sobre quem é observado.
A autora não poupa palavras ao descrever o que esse mecanismo produz socialmente: pessoas que se tornam, segundo o texto, verdadeiros fiscais das falhas alheias — figuras desagradáveis das quais o convívio social, “com cautela e sem perversidade” [2], acaba afastando-se. A recomendação que se segue é clara: trocar a fiscalização pela amizade e lembrar, diante do impulso de criticar, que muitas vezes “o problema não é do outro” [3], mas, sim, projeção da própria sombra não resolvida.
Lido isoladamente, esse ensinamento poderia sugerir uma postura de silêncio quase absoluto diante das imperfeições do próximo — uma espécie de cautela permanente, motivada pelo temor de que, ao criticar, estejamos apenas exibindo nossas próprias feridas.
A ponderação de São Luís
É exatamente nesse ponto que o Capítulo X de O Evangelho Segundo o Espiritismo se torna indispensável para equilibrar a leitura. Questionado se, sendo todos imperfeitos, ninguém teria o direito de repreender o próximo, o Espírito São Luís responde sem rodeios: “cada um de vós deve trabalhar pelo progresso de todos e, sobretudo, daqueles cuja tutela vos foi confiada” [4]. A repreensão, longe de ser vedada, é apresentada como dever — desde que cumprida, como acrescenta o Espírito, “com moderação” [5], e nunca pelo simples prazer de expor o erro alheio.
Mais adiante, a obra trata diretamente da pergunta que talvez mais incomode o leitor sincero: será errado notar os defeitos dos outros? A resposta de São Luís é igualmente direta: “a ninguém é defeso ver o mal, quando ele existe” [6]; e fingir enxergar bondade em toda parte seria, nas palavras do Espírito, uma ilusão capaz de prejudicar o próprio progresso moral.
Onde está, então, o critério?
Postas lado a lado, as duas mensagens não se contradizem, mas exigem do leitor um discernimento mais fino do que uma leitura apressada permitiria. Joanna condena a crítica que nasce da culpa não resolvida e se descarrega no outro como alívio inconsciente; São Luís condena a repreensão movida pelo mesmo impulso, mas reconhece a legitimidade da observação que serve ao progresso real de quem é observado ou à proteção de terceiros.
O critério comum às duas fontes não está no fato de vermos o mal, mas na razão pela qual o nomeamos. São Luís é explícito quanto a isso ao afirmar que tudo, nessa questão, “depende da intenção” [7] de quem observa. E oferece um critério adicional, raramente citado, mas central: “a censura que alguém faça a outrem deve, ao mesmo tempo, dirigi-la a si próprio” [8], verificando se não terá incorrido na mesma falha que aponta.
Esse critério — a censura que se volta primeiro para dentro — é, na prática, o mesmo proposto por Joanna quando recomenda que, diante do impulso de criticar, reconheçamos nele a possível “manifestação do teu complexo conflitivo que se exterioriza” [9]. As duas fontes, portanto, não divergem quanto à legitimidade de ver o erro; divergem apenas, e isso é decisivo, quanto à exigência de que essa visão seja submetida primeiro ao espelho da própria consciência, antes de ser dirigida ao outro.
Misericórdia não é cegueira
Há ainda um terceiro elemento, oferecido por São Luís, que merece destaque por sua coragem pastoral pouco comum: a indicação de que, em determinadas circunstâncias, calar diante do mal pode ser tão prejudicial quanto denunciá-lo sem necessidade. Questionado sobre quando convém desvendar o mal de alguém, o Espírito pondera que, se a falha prejudica apenas quem a comete, o silêncio é o caminho mais caridoso; mas, se ela ameaça terceiros, “deve-se atender de preferência ao interesse do maior número” [10].
Esse trecho impõe um limite necessário a qualquer leitura excessivamente complacente do capítulo de Joanna. A reforma íntima — e a vigilância sobre as próprias projeções — não pode ser confundida com omissão diante de situações em que o silêncio produziria vítimas. A misericórdia bem-aventurada, à qual o próprio Capítulo X se refere em seu título, não é ausência de discernimento: é a recusa de transformar o discernimento em instrumento de vaidade, prazer ou alívio da própria culpa.
Síntese: dois movimentos, uma só caridade
O leitor que percorrer com atenção as duas obras perceberá que Joanna de Ângelis e São Luís não disputam o mesmo território — completam-se. Joanna adverte sobre o perigo de fazer da crítica alheia um mecanismo inconsciente de fuga de si mesmo; São Luís adverte sobre o perigo oposto, o de transformar a tolerância em conivência com o erro que fere terceiros. Entre esses dois extremos — o moralismo disfarçado de virtude e a passividade disfarçada de caridade — situa-se o exercício real da reforma íntima: ver o mal quando ele existe, perguntar-se honestamente se a própria consciência está livre da mesma falha e só então decidir, com moderação e amor, se cabe o silêncio ou a palavra.
É esse equilíbrio, e não a simples ausência de julgamento, que tanto Joanna quanto o Codificador, por meio de São Luís, parecem propor ao Espiritismo: não o silêncio fácil, nem a censura impiedosa, mas o discernimento que nasce do exame de si mesmo antes de qualquer palavra dirigida ao próximo.

Referências bibliográficas:
[1] Atitudes Renovadas, Capítulo 8.
[2] Atitudes Renovadas, Capítulo 8.
[3] Atitudes Renovadas, Capítulo 8.
[4] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo X, Item 19.
[5] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo X, Item 19.
[6] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo X, Item 20.
[7] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo X, Item 20.
[8] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo X, Item 20.
[9] Atitudes Renovadas, Capítulo 8.
[10] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo X, Item 21.
Paulo Henrique de Assis
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