CARE 80

Será que ser cientista significa ser materialista?

Algumas pessoas creem que ser científico e racional significa, necessariamente, acreditar que não existe espírito, Deus e nada além da matéria – ou seja, ser materialista. Kardec até pergunta [1] por que é que os anatomistas, os fisiologistas e, em geral, os que aprofundam as ciências naturais são, com tanta frequência, levados ao materialismo. Os espíritos respondem que “o fisiologista refere tudo ao que vê”, fruto do orgulho dos homens, que julgam saber tudo e não admitem que haja coisa alguma acima de seu entendimento [1]. Em outro momento, os espíritos dizem que não é exato que o materialismo seja uma consequência desses estudos, mas sim que o homem é que deles tira uma consequência falsa [2].

Frequentemente afirma-se que a ciência já provou o materialismo, ou seja, que o cérebro gera a mente/consciência – o ser que pensa e que sente. Portanto, a vida após a morte se trataria apenas de uma crença descolada da realidade – mesmo que professada por várias pessoas. Com isso, o Espiritismo em si não teria fundamento, afinal a alma não sobreviveria depois da morte.

Para isso, argumenta-se, com muita razão, que alterações no cérebro geram alterações na mente. Três pontos são chave nesta argumentação:

(1) estimulação cerebral, drogas, lesões cerebrais ou disfunções fisiológicas afetam a mente (por exemplo, gerando alucinações ou perda de memória);

(2) correlações entre as atividades do cérebro e da mente (por exemplo, sentimento de medo se correlaciona com ativação da amígdala);

(3) paralelos entre a evolução (ou desenvolvimento) do cérebro e da mente, ou seja, uma função mental cada vez mais elevada é exibida pelos seres à medida que progridem pela vida (de bebê a adulto) ou ao longo da evolução das espécies (de animais inferiores a seres humanos).

A essência é mostrar que alterações no cérebro estão relacionadas à manifestação do “eu”, da mente.

Bertrand Russell, considerado um dos maiores propagadores do ateísmo, sintetizou o argumento contra a sobrevivência após a morte. Segundo ele, todos sabemos que a memória pode ser apagada por uma lesão no cérebro, que uma pessoa virtuosa pode se tornar corrupta por uma encefalite letárgica e que uma criança inteligente pode se transformar em deficiente intelectual se não consumir iodo. Diante de fatos assim tão conhecidos, parece-lhe bastante improvável que a mente sobreviva à destruição total das estruturas cerebrais que ocorre com a morte. Ele ainda chega a dizer que não são argumentos racionais, mas sim emoções, que suscitam a crença na vida futura.

Todos esses fatores apresentados provam que o cérebro é fundamental para a manifestação da mente, mas não necessariamente a gera. O cérebro poderia ser um instrumento: quanto melhor seu estado, melhor a capacidade de a mente se manifestar. Um excelente pianista terá sérias dificuldades em executar complexas composições de Beethoven ou Bach se seu instrumento (piano) estiver desafinado, quebrado e faltando peças. Nesse exemplo, deve-se questionar a capacidade do pianista nessas condições? Da mesma forma: será justo questionar a mente se seu instrumento de manifestação (cérebro) estiver alterado?

Peguemos um exemplo prático: uma criança pode pensar que os personagens de um filme ou de um desenho vivem dentro do aparelho de TV. Será que a TV gera os personagens e o programa? Aplicando essa analogia aos três tipos de evidência frequentemente usados para “provar” que o cérebro gera a mente:

(1) estimulação elétrica ou danos aos circuitos de TV podem gerar ou afetar o som e as imagens da TV; (1) estimulação cerebral, drogas, lesões cerebrais ou disfunções fisiológicas afetam a mente;
(2) haverá correlações estritas entre a ativação do circuito da TV e as imagens exibidas; (2) correlações entre as atividades do cérebro e da mente; p. ex.: sentimento de medo ativa a amígdala;
(3) uma melhor imagem (até 4K!) e som de qualidade correspondem à tecnologia e à qualidade do aparelho de TV. (3) paralelos entre a evolução (ou desenvolvimento) do cérebro e da mente, como da infância à fase adulta ou com a evolução das espécies.

No entanto, nenhuma dessas três linhas de evidência “prova” que o aparelho de TV é a fonte última, o produtor dos programas de TV e dos personagens. Na verdade, essas evidências apenas mostram que o aparelho de TV é importante para exibir o programa. Da mesma forma ocorre com o cérebro. Além da discussão teórica, existem evidências científicas que nos levam a crer que o cérebro não é tudo – ou seja, que o materialismo não é verdadeiro. Para isso, basta identificarmos situações nas quais o cérebro estaria incapacitado de produzir uma ação consciente da pessoa, mas, mesmo assim, há manifestação mental.

Um famoso caso é o da paciente Pam Reynolds, que apresentava um enorme defeito em uma importante artéria do cérebro. Devido à localização crítica e ao risco de ruptura fatal, optaram por uma parada cardíaca hipotérmica. Seu corpo foi resfriado a 16 °C. O sangue foi totalmente removido de sua cabeça. Além disso, seus olhos foram selados com fita e fones de ouvido foram inseridos. Os aparelhos de monitorização mostraram ausência de atividade do cérebro, o coração parou, a respiração cessou. Tecnicamente, ela preenchia os critérios de morte cerebral.

Mesmo nessas condições, após a recuperação da cirurgia, ela afirmou ter visto a operação por cima do ombro do cirurgião. Descreveu com precisão a serra usada para abrir seu crânio (que nunca tinha visto) e a surpresa do cirurgião cardíaco ao descobrir que a artéria de uma das pernas era estreita demais, forçando-o a mudar para a outra. Ela identificou corretamente os 20 profissionais na sala e até a música que tocava no ambiente enquanto estava sob anestesia profunda. Inclusive, descreveu pessoas que só entraram na sala de cirurgia após a indução anestésica, bem como equipamentos usados que só foram abertos após ela estar “tecnicamente morta”.

Um caso de mediunidade: Vitor – pseudônimo utilizado para preservar o sigilo no decorrer da pesquisa – era um garoto falecido de leucemia aos 12 anos incompletos (2018). Em 2019, houve uma reunião mediúnica com os pais, o médium e um pesquisador filmando todo o ocorrido. O médium era de outra região do Brasil (mais de 2.000 km da cidade), foi deslocado justamente para essa pesquisa e não tinha acesso prévio aos nomes de quem participaria – para prevenir que a família conhecesse o médium de antemão e ele tivesse acesso a informações por outro meio convencional. Também é válido relembrar que todo o encontro foi gravado, ou seja, pode-se verificar se houve qualquer permuta de informações antes da comunicação mediúnica.

Durante a reunião, o médium diz: “Por que eu me vejo numa garupa de moto?” E os pais relatam que Vitor, após receber o diagnóstico terminal, tinha o sonho de andar de moto. Levaram-no a um sítio, onde realizaram o sonho dele, e os pais relatam que essa foi a última experiência alegre que tiveram em conjunto. Mais adiante na reunião, o médium diz: “Não sei se é porque estou vendo rosa… Quem é Rosa?” Os pais explicaram que, nas últimas internações hospitalares para tratamento, várias profissionais da saúde que cuidavam de Vitor tinham nomes com “Rosa” – Rosana, Rosalina, Rosália, Rosaura – e isso virou uma piada interna de que ele seria cercado de rosas.

Na parte da psicografia – escrita de uma carta –, o texto começa com: “Meu pai e minha mãe. Pra destravar: VITO. Mas dessa vez a gente não precisa mais de senha pra se amar, pra se falar.” “VITO” era a senha utilizada pela família para o Wi-Fi e os computadores da casa. Também estava escrito: “E sempre que posso faço brincadeiras… Frozen… batam palminhas.” Essa era a forma bem particular que Vitor tinha de debochar, de zombar de seus colegas próximos. O garoto também adorava desenhar carros no estilo “Hot Wheels” em vida e, na carta psicografada, havia um carro desenhado.

Havia menção ao cereal Frosties, que o menino consumia rotineiramente (prática incomum no Brasil para ser uma mera especulação do médium), e a descrição do pote que ele sempre utilizava para esse fim. Também havia uma touca de natação desenhada na carta – os pais revelaram que Vitor gostava de natação e colecionava as toucas após as competições de que participava. Sem contar os 13 nomes e apelidos corretos que foram fornecidos. Os participantes não se recordaram de quatro informações no dia do experimento, mas o fizeram mais tarde: os nomes/apelidos Tatiana/Tati e Carina/Nina. É importante ressaltar que o médium continuou insistindo nesses nomes, apesar das negações dos participantes. O médium também forneceu informações que os pais presentes não sabiam – como uma partida de futebol que o primo iria jogar no dia seguinte –, tornando a hipótese de telepatia improvável. Essas são algumas das 30 informações produzidas pelo médium.

Ambos os casos foram publicados em revistas científicas de renome internacional. Além disso, em ambos os casos, o cérebro de cada pessoa estava completamente disfuncional (ou até morto, como no caso de Vitor). Em resumo, a ciência não confirma o materialismo. Muito pelo contrário: coloca em xeque o materialismo e traz a possibilidade da sobrevivência da alma após a morte como uma hipótese cientificamente plausível. Isso nada mais é do que o Espiritismo prega: conciliar fé e razão, ciência e religião.

Referências bibliográficas:

[1] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questão 147.

[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questão 148.

Caio Almeida

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