Que fazeis de especial?
No mundo moderno, tirando algumas poucas aberrações que chocam a todos, conseguimos ver que o ser humano não é perverso ou maléfico — à semelhança de vilões dos desenhos infantis que devotam suas vidas a planejamentos maquiavélicos de como prejudicar os outros. Não, o mundo já não está mais nessa fase. Vivemos uma outra epidemia, talvez igualmente grave, mas silenciosa e mascarada: a fé morna. No Brasil, por exemplo, mais de 90% diz acreditar em Deus… mas será que todos vivem como se acreditassem?

Como diz Emmanuel, no prefácio de Nosso Lar [1]: “não basta aderir verbalmente, melhorar a estatística” — é preciso ação, é preciso vivenciar a crença que dizemos professar. No Evangelho Segundo o Espiritismo [2], também é dito claramente que “para ser proveitosa, a fé tem de ser ativa; não deve entorpecer-se. Pregai vossa fé pelo exemplo, para a incutirdes nos homens. Pregai pelo exemplo das vossas obras para lhes demonstrardes o merecimento da fé.” Lendo essas frases, há quem pense: mas o que será que devo fazer? Já não faço o suficiente? Frequento uma vez por semana o centro espírita, nunca cometi nenhum crime, coloco dinheiro em casa para sustentar minha família, cresci no emprego de forma honesta… deve ser o suficiente.
André Luiz também pensava assim, até acordar do outro lado da vida. Quando estava lendo Nosso Lar, descobri que André Luiz ficou oito anos nas regiões umbralinas, passando por sofrimentos que ele mesmo tinha dificuldade de descrever — por sinal, leiam os dois primeiros capítulos do livro, ou melhor, leiam o livro todo. [1]
Sentia-me, na verdade, amargurado duende nas grades escuras do horror. Cabelos eriçados, coração aos saltos, medo terrível senhoreando-me, muita vez gritei como louco, implorei piedade e clamei contra o doloroso desânimo que me subjugava o espírito. Outras vezes gargalhadas sinistras rasgavam a quietude ambiente. Formas diabólicas, rostos alvares, expressões animalescas surgiam, de quando em quando, agravando-me o assombro. De início, as lágrimas lavavam-me incessantemente o rosto. Seres monstruosos acordavam-me, irônicos; era imprescindível fugir deles. Para quem apelar? Torturava-me a fome, a sede me escaldava. A circunstância mais dolorosa, no entanto, não era o terrível abandono a que me sentia votado, mas o assédio incessante de forças perversas que me assomavam nos caminhos ermos e obscuros. Persistiam as necessidades fisiológicas, sem modificação. Castigava-me a fome em todas as fibras e, nada obstante, o abatimento progressivo não me fazia cair definitivamente em absoluta exaustão. Muita vez suguei a lama da estrada. [1]
Pensei comigo: certamente ele fora um Espírito, no mínimo, muito perturbado para merecer tal condição. Ele nos conta o motivo:
Em verdade, não fora um criminoso, no meu próprio conceito. A filosofia do imediatismo, porém, absorvera-me. A existência terrestre, que a morte transformara, não fora assinalada de lances diferentes da craveira comum. Conquistara meus títulos universitários, compartilhara os vícios da mocidade do meu tempo, organizara o lar, conseguira filhos, perseguira situações estáveis que garantissem a tranquilidade econômica do meu grupo familiar. Habitara a Terra, gozara-lhe os bens, colhera as bênçãos da vida, mas não lhe retribuíra ceitil do débito enorme. Não desenvolvera os germes divinos que o Senhor da Vida colocara em minh’alma. Sufocara-os, criminosamente, no desejo incontido de bem-estar. [1]
Viveu uma vida normal. Ele não fez nada demais — exatamente este o problema: viveu uma vida morna, irreprovável pela lei dos homens. Kardec perguntou aos Espíritos [3] se, para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastaria que o homem não praticasse o mal. Eles disseram: “Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem.”
Em O Céu e o Inferno [4], um Espírito na mesma situação de André Luiz dá seu depoimento após ter vivido uma vida seguindo apenas as leis dos homens: “para ser honesto perante Deus não basta não ter infringido as leis dos homens, é preciso antes de tudo não ter transgredido as leis divinas.” Aqui vai um detalhe: eram pessoas que sequer tinham conhecimento da Doutrina Espírita. E quanto a nós, que temos consciência e conhecimento sobre as consequências de uma vida “nada demais”? Emmanuel nos interpela: “em face de tantos conhecimentos e informações dos Planos mais altos [que a doutrina nos fornece], é justo ouçamos a interrogação do Divino Mestre: — Que fazeis mais que os outros?” [5]
Jesus, há dois mil anos, já disse: “Quando fizerdes tudo o que vos for ordenado, dizei: Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever.” [6] Fazer o mínimo, apenas “não cometer nenhum crime”, apenas cumprir o que nos foi pedido é pouco demais. Jesus nos pede muito mais do que estamos fazendo. Há ainda um livro psicografado, Tormentos da Obsessão [7], que descreve os sofrimentos que os espíritas fracassados enfrentam após a morte. Por fracassados, como dito ao longo do texto, basta desperdiçar as dádivas da doutrina, não frutificando em nossas vidas. Uma árvore que não dá frutos é digna de condenação — assim como Jesus amaldiçoou a figueira sem frutos. [8] Para nós, os Espíritos dizem: “O que lhe falta é a vontade. Ah! Quão poucos dentre vós fazem esforços!” [3]
Deus é amor, claro, mas também é justiça, e não se pode desperdiçar divinas oportunidades sem consequências. A justiça não é uma ilusão, e a verdade surpreenderá toda a gente despreparada. Na parábola dos talentos, um homem entregou talentos a três servos diferentes. Dois usaram-nos adequadamente, multiplicaram-nos e entregaram o resultado ao senhor. O terceiro optou por não usar e, quando o homem voltou, ouviu: “Mau e negligente servo; sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei? Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.” [9] Apesar de muito conhecida, nem sempre nos atentamos para o quão exigente esta parábola é. O terceiro servo não utilizou seu talento para o mal, para benefício próprio nem para prejudicar a outrem — ele simplesmente não o usou. Ele o enterrou.
Todos nós temos dons, habilidades e talentos para empregarmos de forma útil e ativa. Todos temos uma missão para a qual fomos misericordiosamente equipados, que nos permitiria a plena realização. Mas quantos de nós desperdiçamos sagradas oportunidades apenas “matando o tempo”? Pulando de série em série, de reels em reels, de festa em festa. Ninguém se encontra na crosta do planeta em excursão de prazeres fáceis, mas sim em missão de aperfeiçoamento; não estamos em colônia de férias. A existência na esfera física é abençoada oficina de trabalho, resgate e redenção. Claro, podemos aproveitar alguns prazeres que o mundo nos oferece — este texto não é de um asceta. Mas devemos viver no mundo sem ser do mundo.

Referências bibliográficas:
[1] XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Prefácio; Capítulos I e II.
[2] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec. Capítulo XIX, Item 11.
[3] O Livro dos Espíritos, Allan Kardec. Questões 642 e 909.
[4] O Céu e o Inferno, Allan Kardec. Segunda Parte, Capítulo III, Item 2.
[5] XAVIER, Francisco Cândido. Vinha de Luz. Capítulo 60.
[6] Lucas, 17:10.
[7] XAVIER, Francisco Cândido. Tormentos da Obsessão.
[8] Marcos, 11:14.
[9] Mateus, 25:26 e 25:30.
Caio Almeida
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