Aborto sob a luz da ciência
De vez em quando, o tema “aborto” aparece nas mídias e sempre causa grande repercussão por onde se faz presente. Incita muitas emoções de ambos os lados e, não raro, a conversa toma rumos indesejáveis, com pouco diálogo e vários jargões prontos sendo atirados.

Para pensar um tema tão sério, é fundamental ter uma base sólida para sequer ser capaz de coerentemente assumir uma posição. Nesse sentido, será possível encarar esta pauta sob uma perspectiva científica, para além de preceitos religiosos – que frequentemente não são compartilhados por todos?
Alguns alegam que há números espantosos de abortos clandestinos acontecendo, deixando as mulheres vulneráveis, e que, se legalizado, haveria melhor amparo.
Primeiro: se os abortos são clandestinos, como se pode ter o número total, justamente por serem clandestinos/escondidos? Ou seja, qualquer aproximação é bem perigosa e imprecisa. Outro detalhe a acrescentar é que a propaganda pró-aborto inflaciona artificialmente os números justamente para promover a pauta. Como sabemos disso? Ex-abortistas e ex-funcionários de publicidade pró-aborto, como Bernard N. Nathanson e Anthony Levatino, já declararam que eles próprios mentiam os números para mais com o intuito de alarmar a situação e colocar urgência para aprovar a pauta. Bernard Nathanson, no livro Aborting América (Abortando a América), afirmou claramente: “quando falávamos sobre mortes decorrentes de abortos ilegais, eram sempre 5.000 a 10.000 por ano. Eu confesso que sabia que eram totalmente falsas”.
Para comprovar isso, há um caso muito interessante na Cidade do México. Em 2006, quando o aborto ainda era proibido, estimavam-se de 137.000 a 195.000 abortos clandestinos. Após a legalização no ano seguinte, em 2007, foram registrados “apenas” 10.137 abortos, menos de 10% do número alegado [1].
Também citam, frequentemente, que muitas mulheres morrem de aborto clandestino – se fosse liberado, morreriam menos. Testando este argumento, no Brasil, um estudo prospectivo em 27 centros obstétricos mostrou que, das 9.555 mulheres com complicações obstétricas graves, “apenas” 237 (2,5%) eram por aborto [2]. Em outro estudo, agora no México, as regiões com legislação menos permissiva sobre aborto tiveram menores taxas de mortalidade materna quando comparadas com locais onde a legislação era mais permissiva [3].
Outra corrente advoga que o aborto seria uma questão de saúde da mulher. Por outro lado, os estudos mostram que, como um todo, as mulheres podem apresentar diversos efeitos colaterais após a indução do aborto. As melhores evidências disponíveis indicam que as mulheres, após o aborto, apresentam mais chances: 81% de doenças mentais, 110% de se tornarem alcóolicas e 115% de tentarem suicídio [4]; 250% de serem hospitalizadas por questões psiquiátricas [5]; 138% de chances de desenvolver quadros depressivos [6]; 81% de abuso de drogas [7]; 44% de câncer de mama [8].
A mais recente revisão sistemática, publicada em junho de 2024 [9], mostra o aborto associado a problemas mentais, ideação suicida, tentativa de suicídio, uso de álcool e substâncias, “síndrome pós-aborto”, transtornos afetivos, entre outros. Mesmo em uma gravidez indesejada, a mulher fica pior após o aborto [10].
Essas estatísticas fazem cair por terra o argumento de que promover aborto é um caso em benefício da saúde da mulher… É compreensível – e totalmente válida – a genuína intenção de ajudar as mulheres, mas a questão que deve ser feita é: como realmente as ajudamos?

Tudo isso sem abordar a parte religiosa da questão, que ficará para outra oportunidade. Quem quiser saber mais sobre aborto, a história do movimento, uma visão mais completa desses e de outros argumentos neste tema, bem como recomendações de filmes, documentários e páginas no Instagram, acesse o link.
Referências bibliográficas:
[1] International Journal of Women’s Health 2012:4 613-632
[2] Camargo RS, Santana DS, Cecatti JG, Pacagnella RC, Tedesco RP, Melo EF Jr, Sousa MH. Severe maternal morbidity and factors associated with the occurrence of abortion in Brazil. Int J Gynaecol Obstet. 2011 Feb;112(2):88-92
[3] Koch E, Chireau M, Pliego F, Stanford J, Haddad S, Calhoun B, Aracena P, Bravo M, Gatica S, Thorp J. Abortion legislation, maternal healthcare, fertility, female literacy, sanitation, violence against women and maternal deaths: a natural experiment in 32 Mexican states. BMJ Open. 2015 Feb 23;5(2):e006013.
[4] Coleman PK. Abortion and mental health: quantitative synthesis and analysis of research published 1995-2009. Br J Psychiatry. 2011 Sep;199(3):180-6.
[5] Reardon DC, Cougle JR, Rue VM, Shuping MW, Coleman PK, Ney PG. Psychiatric admissions of low-income women following abortion and childbirth. CMAJ. 2003 May 13;168(10):1253-6
[6] Cougle JR, Reardon DC, Coleman PK. Depression associated with abortion and childbirth: a long term analysis of the NLSY cohort. Med Sci Monit. 2003 Apr;9(4):CR105-12.
[7] Colemans, Priscilla K. et al. Women Who Suffered Emotionally from Abortion: A Qualitative Synthesis of Their Experiences. Journal of American Physicians and Surgeons Volume 22 Number 4 Winter 2017
[8] Huang Y, Zhang X, Li W, Song F, Dai H, Wang J, Gao Y, Liu X, Chen C, Yan Y, Wang Y, Chen K. A meta-analysis of the association between induced abortion and breast cancer risk among Chinese females. Cancer Causes Control. 2014 Feb;25(2):227-36.
[9] Littell JH, Young S, Pigott TD, Biggs MA, Munk-Olsen T, Steinberg JR. Abortion and mental health outcomes: A systematic review and meta-analysis. Campbell Syst Rev. 2024 May 21;20(2):e1410.
[10] Bellieni CV, Buonocore G. Abortion and subsequent mental health: Review of the literature. Psychiatry Clin Neurosci. 2013 Jul;67(5):301-10.
Caio Silva de Almeida
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