Horas vãs
Emmanuel nos traz importante matéria sobre essa temática (livro Caminho, Verdade e Vida, Capítulo 37), conduzindo-nos a profundas reflexões ao tomar por base as palavras de Jesus, citadas pelo evangelista Marcos: “Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens” [1]. O Benfeitor inicia estabelecendo um paralelo entre a interpretação e a vivência da mensagem de Jesus, uma vez que, após o Cristo, “os homens lavraram ordenações e decretos na presunção de honrar o Cristo, semeando, em verdade, separatismo e destruição” [2]. Ao analisarmos esse importante alerta, veremos que, desde o século IV — quando Roma decretou o Cristianismo como religião oficial —, os decretos começaram a surgir por parte das autoridades eclesiásticas, enxertando o Cristianismo nascente com ordenações humanas e, como afirma o Benfeitor, criando até mesmo separatismo religioso, que culminou sempre em guerras, em consequência de cada um querer ser dono da verdade e acabar por construir um Cristianismo que atendesse a seus interesses. Apesar de, desde o início, o Divino Mestre ter enfatizado que “não viera destruir a Lei” [3] e que “seu reino não era deste mundo” [4], não se percebeu que a mensagem era transcendente, muito além dos interesses humanos.

O Benfeitor conduz-nos a meditar também sobre o fato de que os últimos séculos “estão cheios de figuras notáveis de reis, de religiosos e de políticos que se afirmaram defensores do Cristianismo e apóstolos de suas luzes; escreveram ou ensinaram em nome de Jesus…” [5]. Por isso, é preciso renovar a compreensão geral da mensagem do Cristo, que, na atualidade, continuamos a interpretar e a vivenciar de forma equivocada. Isso nos remete ao pequeno recorte do Prefácio de O Evangelho Segundo o Espiritismo, no qual o Espírito de Verdade vem alertar-nos de que estamos “convidados para um concerto divino; tomai da lira e fazei uníssonas vossas vozes…” [6]. Pode-se afirmar que esse convite vibra no ar desde os primórdios e que hoje temos muito mais condições de entendê-lo, porquanto essa lira a que o Mentor se refere é o coração de nosso irmão. Participar do concerto e integrar com amor essa família universal é tomar parte da grande orquestra, pois todos nós, entoando do coração o hino à fraternidade, sem palavras articuladas, estaremos seguindo Jesus, Guia e Modelo da Humanidade [7] — pois para isso Ele veio.
Conclamando-nos ao “Amor a Deus e ao Próximo”, o Mestre enfatizou, ao partir: “Meus discípulos serão conhecidos por muito se amarem…” [8]. Considerando que discípulo significa aprendiz, seguidor, precisamos estar conscientes de que a Seara de Jesus é o mundo e, por consequência, todos somos seus discípulos nos mais diversos campos de ação, tais como a família, o ambiente profissional e a comunidade. Onde quer que estejamos, temos de entender a mensagem do Cristo e vivenciá-la.
Daí o alerta de Allan Kardec: “O Espiritismo abre horizontes novos para o futuro [e] derrama luz não menos viva sobre os mistérios do passado” [9]. E, recolhendo do Espírito de Verdade: “Os Espíritos do Senhor, semelhantes às estrelas cadentes, vêm iluminar o caminho e abrir os olhos aos cegos” [10].

Referências bibliográficas:
[1] Marcos, 7:7.
[2] Caminho, Verdade e Vida, Capítulo 37.
[3] Mateus, 5:17.
[4] João, 18:36.
[5] Caminho, Verdade e Vida, Capítulo 37.
[6] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Prefácio.
[7] O Livro dos Espíritos, Questão 625.
[8] João, 13:35.
[9] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Introdução.
[10] O Evangelho Segundo o Espiritismo, Prefácio.
Geraldo Sebastião Soares
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